Por que o dia de Iemanjá é celebrado em 2 de fevereiro e quais são as principais tradições
2 de fevereiro marca as águas e areias brasileiras com o louvor e as canções para Iemanjá, a divindade conhecida como “Rainha do Mar”
As praias brasileiras se enchem de devoção no dia 2 de fevereiro para reverenciar Iemanjá, uma divindade reverenciada pelas religiões de matrizes africanas. Conhecida como a “Rainha do Mar”, ela recebe homenagens com rituais, cânticos e oferendas que reúnem praticantes da umbanda e do candomblé, além de simpatizantes, desde as primeiras horas do dia.
As celebrações envolvem o lançamento de oferendas marítimas, expressando pedidos e agradecimentos à orixá do panteão iorubá, com os devotos frequentemente vestidos de branco. Embora a cantora baiana Maria Bethânia tenha entoado a data em sua interpretação da canção “Iemanjá Rainha do Mar”, o 2 de fevereiro não é uma data unânime para a celebração da divindade em todo o território nacional.
2 de fevereiro e o sincretismo religioso explicam as variações na data
A variação na data de homenagem a Iemanjá pelo país é resultado do sincretismo religioso, um processo que combina elementos de diferentes tradições religiosas, formando uma síntese de crenças, rituais e valores. Ao longo da história, culturas se viram compelidas a conciliar suas práticas com as de outros povos, muitas vezes por necessidade de sobrevivência.
No Brasil, este sincretismo teve um desenvolvimento marcante durante o período da escravidão. Praticantes de religiões de matriz africana, diante de proibições e torturas, camuflaram suas tradições fundindo-as com a liturgia católica. Essa estratégia permitiu a preservação de suas crenças enquanto demonstravam conformidade com as imposições religiosas.
“Por conta das proibições e torturas imputadas à população negra e escravizada, incluindo a não permissão da realização de seus cultos, crenças e a imposição da crença no Deus cristão, no Deus católico e no catolicismo, os negros tinham de fazer suas venerações e orações às escondidas”
Alexandre Meireles, babalorixá, xamã e dirigente do terreiro de umbanda Círculo de Irradiações Espirituais São Lázaro, na zona sul de São Paulo, aponta que os escravizados aproximaram as características de santos católicos às dos orixás, inquices ou voduns, utilizando as imagens dos santos para cultuar suas divindades, sem que isso significasse que orixás e santos fossem a mesma coisa.

Assim, grande parte das datas de celebração aos orixás está diretamente ligada aos dias dos santos católicos, criando uma ponte simbólica entre as tradições. No dia 2 de fevereiro, por exemplo, o calendário católico celebra Nossa Senhora dos Navegantes, que foi associada a Iemanjá, especialmente no Nordeste brasileiro.
Na região Sudeste, a divindade africana é sincretizada com Nossa Senhora da Imaculada Conceição, cuja homenagem ocorre em 8 de dezembro. Nessa data, diversas praias de São Paulo recebem umbandistas e candomblecistas para honrar a orixá.
Festa de Iemanjá em Salvador se destaca com exclusividade
A capital baiana, Salvador, realiza uma das celebrações mais icônicas para Iemanjá. A festa popular no bairro do Rio Vermelho é um dos eventos mais esperados do verão, combinando simbolismo e a agitação que toma o bairro. É a única festa da Bahia dedicada exclusivamente a uma orixá, sem a associação a um santo católico.
Desde os primeiros raios de sol do dia 2 de fevereiro, grupos religiosos de diversos bairros entregam presentes e oferendas à Rainha do Mar. Candomblecistas e umbandistas se reúnem na praia com atabaques e cânticos tradicionais, carregando grandes balaios de flores, perfumes, réplicas de barcos e outros mimos.
Iemanjá é celebrada como uma grande matriarca na tradição dos orixás. Ela governa a fecundidade das águas e das mulheres, possuindo seios fartos para nutrir a comunidade, além de sabedoria e onipresença para guiar e cuidar de seus filhos. Seu simbolismo abrange a mudança das marés, alternando entre tempestades e bonanças.
Ao longo da manhã, milhares de pessoas passam pela praia do Rio Vermelho para deixar rosas, espelhos e alfazemas diretamente na areia ou no balaio oficial, organizado pela colônia de pescadores. Esses presentes tingem e perfumam as ruas durante a festa.
O ponto alto da celebração é a entrega dos presentes no meio do alto mar, por volta das 16h, quando o balaio oficial é levado por um barco. Pouco antes, a chegada do cortejo dos Filhos de Gandhi, com seu próprio grande balaio, sinaliza a proximidade da entrega oficial. Ao som do afoxé, com o aroma de alfazema e as cores do pôr do sol baiano, as pessoas se reúnem na areia para acompanhar a procissão marítima de barcos de pescadores que escoltam a imagem oficial e os presentes.
Um dia inteiro de celebração e badalação em Salvador
Após os rituais religiosos, as ruas de Salvador se transformam em um grande festival. Cortejos de blocos de percussão e maracatu atravessam as vias em frente à Colônia de Pescadores e à praia. Apresentações artísticas e manifestações políticas são comuns, especialmente em anos eleitorais.
A parte profana da festa começa na noite do dia 1º de fevereiro, com bares à beira-mar organizando festas e shows de artistas nacionais. Desfiles de cortejos são aguardados, como o Maracatu Ventos de Ouro, composto apenas por mulheres, que desfila por volta das 22h na Orla. Mais tarde, na madrugada, o Cortejo Afro, tradicional bloco de percussão do carnaval, arrasta uma multidão.
Durante todo o dia 2, o bairro oferece festas variadas, com música para todos os gostos, incluindo rap, dub, ska, hip hop, MPB, pop, axé, samba, rock, pagode e reggae, criando uma sinfonia de ritmos e tribos que transitam em harmonia.
A representação de Iemanjá e seu embranquecimento
A proximidade de Iemanjá com as santas católicas resultou em uma representação visual frequentemente embranquecida. Na arte, publicidade e até em algumas representações religiosas, a divindade associada aos rios e mares é retratada como uma mulher magra, branca, de cabelos lisos, vestindo azul.
Contudo, em países africanos e nos terreiros brasileiros que não adotam o sincretismo como regra, Iemanjá mantém sua representação original, como uma figura de formas largas e pele negra.
A origem da roupa branca no ano novo
O costume de vestir roupas brancas e ir à praia na virada do ano, adotado atualmente por pessoas de diversas crenças, teve seu início na primeira metade do século passado. Umbandistas, em saudação a Iemanjá, realizavam seus rituais nas praias, todos trajados de branco, oferecendo flores e champanhe e reforçando seus pedidos por um bom ano novo.
“A tradição foi crescendo, e as pessoas começaram a ir de branco para a praia, mesmo se não tivessem a crença no orixá ou fossem da religião. E isso virou o ano novo brasileiro”
Meireles explica a popularização do hábito, que se tornou um elemento cultural do Ano Novo brasileiro.
Odoyá: rituais, oferendas e agradecimentos à orixá
A grafia original da divindade, conforme a tradição iorubá, é Yemanjá, com “y”, significando “mãe cujos filhos são peixes” (Ye omo ejá). No Brasil, no entanto, a forma “Iemanjá” se tornou mais comum, assim como ocorreu com o próprio termo yorubá.

O babalorixá Alexandre Meireles lista três rituais simples que costumam ser realizados no Dia de Iemanjá, em 2 de fevereiro:
- Ritual com vasilha
Junte sete rosas brancas com os cabos cortados e coloque-as em uma vasilha dentro de casa, com água e perfume, preferencialmente alfazema. Ofereça as rosas a Iemanjá, deixando-as flutuar no recipiente, que pode servir como enfeite para o lar. Os pedidos devem focar em harmonia familiar, limpeza energética do ambiente, paz e entendimento entre os membros da família. - Ida ao mar
Caso seja possível ir ao mar no dia 2 de fevereiro, coloque os pés na água e faça suas orações. Planeje o ano, focando no que é importante que aconteça nos meses seguintes. É crucial utilizar objetos não poluentes ao meio ambiente. Meireles orienta: “Rosas brancas, ou até mesmo a champanhe branca, que, ao abrir, pode ser despejada na água do mar, sendo oferecida à Iemanjá e a todos os seres do mar, que é um campo de renovação. Não esqueça de recolher a rolha da garrafa”. - Vela, água e lua cheia
Em um recipiente, adicione água pura, acenda uma vela para Iemanjá e peça à orixá, que cuida das cabeças e aspectos psicoespirituais, firmeza para não permitir a depressão e a ansiedade. Peça também equilíbrio mental, harmonia familiar, abundância, entendimento e amorosidade. Ao acender a vela, passe-a por cima do recipiente com água, pedindo que Iemanjá deposite ali seus desejos. Deixe o recipiente no sereno durante a noite inteira. A chuva não anula o ritual, e se possível, deixe a vasilha receber a energia da Lua, especialmente nas fases cheia ou crescente.
O babalorixá afirma que, no dia seguinte, pode-se adicionar um pouco de perfume, pois Iemanjá é também a orixá do olfato, e perfumes são sempre presentes em suas ritualísticas. Em seguida, a água deve ser despejada em um objeto que possa ser usado para aspergir nos cantos da casa, sobre a cabeça ou no travesseiro antes de dormir. Este ritual serve não apenas como limpeza, mas também para atrair bons fluidos.

