Luto por pets é considerado dor emocional significativa, diz psicoterapeuta

Pessoa em casa segurando uma coleira e olhando uma foto do pet, simbolizando luto pela morte do animal de estimação

A morte de um animal de estimação pode abalar rotina, suporte emocional e senso de família, e o luto tende a piorar quando não recebe validação

A perda de um animal de estimação pode provocar uma dor emocional intensa e, em alguns casos, ser vivida como tão forte quanto a morte de uma pessoa. Renata Roma, psicoterapeuta especialista em vínculos com animais, afirma que esse luto ainda costuma ser minimizado, apesar de o impacto depender menos da espécie e mais do significado que o pet tinha na vida do tutor.

Um levantamento com tutores nos Estados Unidos citado pela psicoterapeuta indica que 97% das pessoas percebem o animal como um membro da família. Renata Roma relaciona esse dado ao tamanho da ruptura sentida após a morte. “Não é uma surpresa que esse impacto seja tão grande. A pessoa perde uma parte importante de suporte emocional, de rotina e algo que dava sentido aos seus dias.”

O cotidiano é um dos pontos que pode ampliar a sensação de vazio, já que a convivência com o pet costuma ser diária. A ausência aparece em tarefas simples, como sair para passear, colocar comida, ou até lidar com a bagunça que antes fazia parte da casa. Para algumas pessoas, essa repetição de lembranças no dia a dia torna o processo mais difícil de atravessar.

Renata Roma explica que o vínculo pode ocupar lugares afetivos profundos, como o de filho, amigo ou companheiro. “Muitos se intitulam ‘pai’ ou ‘mãe’ de pet ou simplesmente declaram que ele tem um papel importante em ajudá-las a lidar com questões de saúde mental, como depressão e ansiedade.”

Uma pesquisadora da Universidade de Saskatchewan, no Canadá, também descreve o animal como fonte constante de acolhimento no convívio doméstico. “O animal tem um papel de âncora emocional fundamental, está ali presente e exerce um papel não julgador. As pessoas conversam e compartilham emoções muito profundas com o seu animal de estimação, o que faz com que esse vínculo seja extremamente significativo”.

Mesmo com esse contexto, parte do entorno pode tratar como exagero quando alguém relata sofrer mais pela morte de um pet do que pela perda de um parente ou amigo. Renata Roma aponta que o peso do luto varia por diferentes fatores e chama atenção para o efeito da falta de validação emocional. Nesses casos, os sintomas podem ganhar força e incluir isolamento social, depressão, ansiedade e ideações suicidas.

A psicoterapeuta afirma que o desconhecimento sobre esse tipo de luto ainda aparece até entre profissionais. A avaliação cuidadosa dos sinais, segundo ela, ajuda a diferenciar o sofrimento esperado de um quadro que pede mais atenção, especialmente quando a pessoa sente que não encontra saída.

Durante o luto, podem surgir reações físicas e psicológicas, com mudanças na forma de dormir e de funcionar no dia a dia. Entre os sinais citados pela especialista estão dificuldade para dormir, tensão constante, raiva e sentimentos intensos ligados à perda, dificuldade de lidar com a rotina, falta de foco e sensação de vazio.

Renata Roma destaca que o alerta cresce quando o sofrimento se mantém por muito tempo e compromete a vida cotidiana de forma importante. “Sempre que os sintomas são muito intensos, prolongados e acompanhados da sensação de estar sem saída, isso se torna um sinal de alerta”, pontua.

Para lidar com o luto, a psicoterapeuta orienta que o primeiro passo é reconhecer a experiência como natural e não patológica. “A experiência faz parte da vida de todas as pessoas, então é preciso validar e naturalizar como algo legítimo.”

Ela também recomenda buscar espaços de expressão e elaboração de memórias, de modo que o vínculo possa ganhar uma dimensão simbólica após a morte. “Falar sobre o animal, lembrar momentos positivos, recortar fotografias, fazer um álbum, escrever para ele, reunir pessoas e compartilhar histórias são formas importantes de elaborar a perda.”

Ao mesmo tempo, a especialista ressalta a necessidade de manter espaço para projetos voltados ao futuro e para o autocuidado. “O ideal é buscar um equilíbrio entre ter momentos de simbolização da perda e momentos em que a pessoa possa se engajar em atividades voltadas para o futuro e em práticas de autocuidado”, conclui.

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