China avança na integração de inteligência artificial em produtos físicos
Movimento geopolítico observado durante evento em Las Vegas aponta para estratégia chinesa de levar inovações além dos softwares geradores de imagens
A recente edição da CES, uma das principais feiras de eletrônicos do mundo realizada em Las Vegas, serviu como palco para uma demonstração de força do setor tecnológico chinês. As empresas do país asiático deixaram clara a intenção de incorporar rapidamente a inteligência artificial a uma vasta gama de produtos tangíveis. O movimento expande a rivalidade tecnológica com os Estados Unidos para além dos chatbots e algoritmos, alcançando o terreno de robôs, automóveis e utensílios domésticos.
Nenhuma nação ou corporação assumiu ainda o controle definitivo do setor emergente denominado “IA física”. A China, no entanto, aproveitou o evento para exibir óculos inteligentes, aspiradores autônomos e robôs destinados ao cuidado de idosos, sinalizando as soluções práticas que busca implementar. A estratégia se baseia na experimentação acelerada e no aproveitamento da infraestrutura industrial já estabelecida no país.
O avanço rápido das companhias chineses em produtos tangíveis de IA é notável. Tigress Li, cofundadora da BreakReal, startup de Xangai responsável por um robô bartender, atribui esse ritmo a fatores estruturais. “O progresso é impulsionado por uma sólida sinergia entre hardware e software na cadeia de suprimentos de manufatura.”
A cidade de Shenzhen desempenha um papel central nesse ecossistema, fornecendo componentes essenciais como telas, baterias e chips. Essa logística permite que as empresas locais evoluam de conceitos para protótipos e produtos finais em uma velocidade difícil de ser acompanhada por concorrentes ocidentais. Yi Li, fundador da Appotronics, reforça que o aprendizado sobre como acelerar o desenvolvimento de produtos prontos para o mercado foi assimilado pelas companhias da região.
O mercado chinês de hardware de IA, englobando robótica industrial e produtos de consumo, apresenta projeções robustas de crescimento. Dados da consultoria Beijing Runto Technology indicam uma expansão anual de 18% até 2030, partindo de uma base de US$ 153 bilhões estimada para 2025. O cálculo considera eletrodomésticos e dispositivos vestíveis, deixando de fora automóveis e smartphones.
A variedade de itens apresentados na feira ilustra essa diversificação. A startup Glyde exibiu uma máquina de cortar cabelo inteligente, enquanto outros estandes mostravam comedouros de pássaros capazes de registrar imagens das aves e brinquedos antiestresse que reagem a emoções. A SZ DJI Technology, líder em drones, e a Appotronics, com projeções a laser para uso automotivo e estético, também marcaram presença com novidades impulsionadas por IA.
Entre os destaques de maior complexidade estavam os robôs humanoides e quadrúpedes de fabricantes como Unitree Robotics e Engine AI. Esses equipamentos demonstraram capacidade de interação em tempo real com humanos e aplicações voltadas para a indústria. Outras inovações incluíram avatares de IA com rastreamento ocular e presença física simulada, como os apresentados pela startup Lepro e pelo Projeto Ava, da Razer.
Empresas norte-americanas e europeias também exibiram integrações de inteligência artificial. A Caterpillar demonstrou assistentes para construção civil e agricultura, a General Electric apresentou geladeiras com controle de estoque via escaneamento e a Lego lançou conjuntos interativos com sensores. O volume e a velocidade de implementação da China no campo do hardware, contudo, chamaram a atenção pela diversidade de aplicações.
O cenário sugere que a capacidade de testar eletrônicos de todos os tipos no mercado interno ajudará a China na competição global pelo hardware inteligente. Neil Shah, cofundador da Counterpoint Research, analisa o impacto dessa tendência no futuro do setor. “Qualquer país que consiga produzir itens de IA que você possa segurar, usar, se divertir ou se encantar com eles pode alcançar a forma definitiva de domínio computacional.”

