Páginas de memes adotam avisos de inteligência artificial para manter confiança
A viralização de conteúdos hiper-realistas gerados por inteligência artificial impulsionou uma mudança de postura em grandes páginas de entretenimento nas redes sociais. Perfis dedicados ao humor começaram a sinalizar explicitamente quando uma produção utiliza ferramentas tecnológicas para sua criação. A medida busca preservar a credibilidade junto ao público e evitar que vídeos sintéticos sejam confundidos com registros espontâneos da realidade.
A página Memes Brasil, que acumula mais de 3 milhões de seguidores no Instagram, aderiu ao uso de selos informativos em suas publicações. Giancarlo Alves, fundador do perfil, destaca que a iniciativa responde ao aumento de materiais que circulam sem contexto claro sobre sua origem. “A necessidade surgiu a partir da popularização de vídeos hiper-realistas que viralizaram sem que o público soubesse que eram sintéticos. O foco é a transparência”.
Um caso emblemático ocorreu em outubro de 2025 envolvendo supostos idosos fantasiados para o Halloween em uma casa de repouso nos Estados Unidos. As imagens publicadas pelo perfil @basincreekretirement somaram 40 milhões de visualizações no TikTok e geraram dúvidas sobre sua veracidade. Após a enorme repercussão, o autor admitiu o uso de tecnologia para criar tanto os personagens quanto o cenário, confirmando que nem o asilo, nem os idosos eram reais.
A falta de clareza provoca reações mistas e cobranças por parte dos internautas nos comentários de vídeos virais. Enquanto alguns usuários expressam espanto com a qualidade técnica, outros exigem honestidade imediata dos criadores. Frases como “está ficando tão real, é assustador” ilustram o temor diante da dificuldade de distinguir o real do fabricado. O pedido por sinalização tornou-se uma demanda frequente da audiência.
Leonardo Foletto, pesquisador de cultura de memes e professor de comunicação da USP, alerta para os riscos de desinformação associados a essa prática sem controle. A circulação de materiais sem a devida identificação elimina referências cruciais sobre o processo produtivo daquele conteúdo. “Quando memes criados por IA circulam sem identificação, perdemos referências fundamentais sobre a origem e o processo de produção daquele conteúdo.”
O especialista ressalta que a quebra de confiança ocorre quando a audiência compartilha algo acreditando ser fruto da criatividade coletiva humana e descobre posteriormente a origem artificial. “Isso é grave porque os memes funcionam como bombas semióticas recombinantes, capturam nossa atenção, nos fazem rir ou nos emocionam. Se alguém compartilha um meme achando que ele é espontâneo, produto da criatividade coletiva, mas descobre depois que foi gerado por IA, há uma quebra de confiança. A sinalização previne isso”.
A recepção da audiência varia conforme o grau de realismo e a intenção do vídeo apresentado. Produções que mostram situações absurdas e claramente manipuladas, como animais tocando instrumentos musicais ou bebês em situações inusitadas, tendem a ser recebidas com leveza. O ator Selton Mello, entusiasta do gênero, chegou a afirmar que assistiria a horas desse tipo de material.
Cenários que simulam a realidade com perfeição despertam preocupações mais profundas sobre o futuro da informação e o impacto em processos democráticos. Vídeos que imitam gravações amadoras ou produções cinematográficas, como uma suposta versão realista de “Shrek”, geram pedidos por regulamentação antes de períodos eleitorais. O sentimento de vulnerabilidade é comparado por alguns usuários à sensação de cair em notícias falsas compartilhadas em aplicativos de mensagens.
A simples sinalização não é considerada suficiente para resolver todos os dilemas éticos envolvidos na tecnologia. Foletto defende a existência de restrições claras para a criação de deepfakes que envolvam pessoas reais, visando proteger reputações e a segurança individual. “Precisamos ensinar as pessoas a questionar: quem criou isso? Com que ferramentas? Com qual intenção?”
O uso da inteligência artificial no humor pode ser bem aceito se houver honestidade na comunicação com o espectador. Giancarlo Alves vê na ferramenta uma possibilidade de ampliar formatos e linguagens cômicas, desde que o público saiba o que consome. Leonardo Foletto concorda que, se utilizada com criatividade e sem simular uma organicidade falsa, a tecnologia pode enriquecer a cultura dos memes.
