Atos pró-regime no Irã reúnem multidões e criticam distúrbios e interferência
Milhares de pessoas compareceram neste domingo 11 e segunda-feira 12 a atos pró-regime na República Islâmica do Irã, em manifestações convocadas para condenar os distúrbios que abalam o país desde dezembro.
Levantamentos não oficiais citam a morte de 490 manifestantes e 48 agentes das forças de segurança desde o início da onda de protestos antigovernamentais, números que circulam em meio a alegações de vandalismo, ação de grupos armados e tentativas externas de interferência.
Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse a repórteres que as Forças Armadas americanas avaliam opções de ação e que haverá contato com lideranças de Teerã sobre o assunto
“Os militares estão analisando, e estamos considerando algumas opções muito sólidas. Tomaremos uma decisão. Talvez tenhamos que agir antes da reunião [com Teerã]”
No Irã, o Ministério das Relações Exteriores convocou embaixadores de países que declararam apoio aos protestos para exibir vídeos de manifestantes armados e encapuzados abrindo fogo durante os atos. De acordo com o governo, as imagens também mostram cenas de vandalismo contra carros, prédios e bloqueio de vias, e configuram atos que ultrapassam os limites de uma manifestação pacífica.
Em entrevista a uma emissora estatal, o presidente Masoud Pezeshkian ressaltou qual é a linha do Executivo quanto à liberdade de protesto e ao que considera ação terrorista
“O protesto pacífico é tolerado no país, mas que os distúrbios dos últimos dias são provocados por “terroristas do estrangeiro””
Na mesma entrevista, o chefe de Estado descreveu a violência observada nos episódios recentes
“Alguns policiais foram mortos a tiros, alguns foram decapitados, alguns foram queimados vivos. Os terroristas destruíram lojas e o mercado”
Autoridades iranianas atribuem parte da escalada à atuação de serviços de inteligência estrangeiros, citando, entre outros, a CIA e o Mossad, e afirmam que o objetivo seria promover um novo confronto após tentativas anteriores de derrubar o regime durante a chamada guerra dos 12 dias no ano passado, quando Washington e Tel Aviv bombardearam o país persa.
Especialistas relacionam a origem dos protestos a medidas econômicas adotadas pelo governo. O fim de subsídios à importação de alimentos, no final de dezembro, elevou preços e pressionou a inflação, afetando diretamente o custo de vida de amplos setores da população.
Bruno Lima Rocha, jornalista, cientista político e professor de relações internacionais, contextualizou a transformação dos protestos iniciais em um quadro de crise com dimensões internas e externas
“Diante de uma questão de soberania, a população foi convocada pelo pelas forças que compõem a República, e tem essa multidão na rua”, avaliou Bruno Lima Rocha, que também é editor da Hispan TV Brasil.
O especialista apontou também que há incentivos que elevam o nível de violência e alteram a percepção pública sobre as manifestações
“Parece que tem uma política de incentivo para elevar o nível de violência e, quem sabe, fazer o país ser atacado de novo. Isso ninguém vai admitir. Isso isola o protesto e fica como se fosse uma traição nacional e vai se criando um grande consenso contra os distúrbios antigoverno”
Bruno encerrou sua análise traçando um panorama histórico que, segundo ele, explica parte da resistência iraniana a pressões externas
“Depois da Revolução de 1979, o Irã assumiu toda a cadeia produtiva do petróleo e conseguiu fazer do petróleo um instrumento do desenvolvimento nacional. A desculpa do momento é ser solidário com os protestos. Ontem era a energia atômica para fins pacíficos. Enquanto o Irã não se subordinar à hegemonia do Ocidente, o país vai ser visto como o alvo permanente do imperialismo”
As informações oficiais, as imagens divulgadas pelo governo e os relatos de participantes e autoridades externas permanecem como vetores centrais do debate sobre os próximos passos, em um cenário que combina reivindicações econômicas internas e acusações de interferência estrangeira.

