Novo guia orienta rastreamento do câncer de colo do útero no SUS
A Fundação do Câncer lançou nesta quinta-feira, 8, uma versão revista do Guia Prático de Prevenção do Câncer de Colo do Útero, com orientação dirigida a profissionais de saúde para a transição gradual do rastreamento citológico para o teste molecular de DNA-HPV no Sistema Único de Saúde.
O documento, divulgado durante o Janeiro Verde, incorpora as novas Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero aprovadas pela Conitec e reflete mudanças que incluem a incorporação dos testes moleculares no SUS e a implantação progressiva do novo método desde setembro do ano passado.
O processo de implementação foi iniciado por um núcleo criado na Secretaria de Atenção Especializada em Saúde do Ministério da Saúde e, em 2024, os testes moleculares para detecção do HPV oncogênico passaram a integrar a rede pública. A estratégia começou por municípios de 12 estados e está em diferentes estágios, enquanto conversas foram ampliadas para outros 12 estados com o objetivo de apoiar a ampliação da implementação.
O guia detalha fluxos clínicos e mantém, para locais onde o exame molecular ainda não foi incorporado, as regras baseadas no rastreamento citológico por Papanicolau.
Público‑alvo e periodicidade do rastreamento
O Brasil manteve a faixa etária de 25 a 64 anos como público de rastreamento com o teste DNA-HPV, decisão que, conforme o guia, evita a coexistência simultânea dos dois métodos em uma mesma unidade de saúde e reduz confusão no cuidado.
Quanto à frequência, a mudança no método altera os intervalos de acompanhamento por conta da maior sensibilidade do teste molecular. Na citologia, os exames iniciais são anuais e, depois de dois resultados negativos feitos no intervalo de um ano, passam a ser repetidos a cada três anos.
“Os primeiros exames são anuais e, a partir daí, são trienais”.
Conforme a consultora médica da Fundação do Câncer, Flávia Miranda Corrêa, o DNA-HPV negativo oferece alta segurança e permite ampliar o intervalo do rastreamento para cinco anos para a maioria das mulheres.
Entre pacientes com resultado positivo para os tipos HPV 16 e 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero, o encaminhamento para colposcopia é imediato. Para positividade a outros tipos oncogênicos, a citologia reflexa será realizada no mesmo material coletado e orientará seguimento: se a citologia apresentar alterações, haverá encaminhamento para colposcopia; se estiver normal, o teste de HPV será repetido em um ano.
Vacinação, metas e cuidados na rede
O guia reforça os três pilares da estratégia global para eliminação do câncer de colo do útero apoiada pela OMS: vacinação, rastreamento com teste molecular e tratamento oportuno. O Brasil assumiu metas até 2030 que incluem vacinar 90% das meninas até 15 anos, rastrear 70% das mulheres com teste molecular e tratar 90% das pacientes diagnosticadas com lesões precursoras ou câncer.
“Tanto a vacinação quanto o método de rastreamento receberam muitas mudanças nesse período, principalmente em 2025. Houve uma ampliação para vacinação do público-alvo contra o HPV”
Conforme a consultora médica Flávia Miranda Corrêa, a vacina contra o HPV, disponibilizada desde 2014 no SUS, é a principal forma de prevenção primária porque impede a infecção que leva ao câncer. O Programa Nacional de Imunização realiza desde o fim do ano passado uma ação de resgate de adolescentes de 15 a 19 anos que ainda não foram vacinados, com duração prevista até o fim do primeiro semestre de 2026.
“Vai ser uma medida muito importante, porque a gente sabe que quanto mais cedo a criança ou adolescente for vacinado contra o HPV, maior é a imunidade que se desenvolve”.
No SUS, meninas e meninos de 9 a 14 anos recebem dose única da vacina quadrivalente. Grupos prioritários como pessoas com HIV/Aids, transplantados, pacientes oncológicos, vítimas de abuso sexual e usuários de PrEP têm acesso gratuito de 9 a 45 anos. Mulheres entre 20 e 45 anos não têm vacinação incorporada ao SUS e devem recorrer ao setor privado, com esquema dividido em três doses a partir dos 20 anos, decisão a ser tomada em conjunto com o profissional de saúde.
“Essa mudança aproxima o Brasil de países como a Austrália, referência mundial, que já registrou quedas expressivas na incidência da doença após adotar o novo exame como principal método de rastreamento”
O guia também destaca a necessidade de não apenas substituir o teste, mas de assegurar toda a cadeia de cuidado, do diagnóstico ao tratamento oportuno. Exames de triagem eficazes não funcionam isoladamente se não houver estrutura para manejo de lesões precursoras e acesso rápido ao tratamento oncológico.
“Não basta só mudar o teste. Toda a rede de cuidado e prevenção do câncer do colo do útero tem que estar estruturada”.
De acordo com o diretor executivo da Fundação do Câncer, o cirurgião oncológico Luiz Augusto Maltoni, enquanto o Papanicolau identifica alterações celulares já presentes, o teste molecular detecta a infecção pelo HPV, ampliando a capacidade de detecção precoce e a efetividade das estratégias de prevenção.
O guia pode ser consultado na íntegra no site da Fundação do Câncer e serve como instrumento para orientar estados e municípios durante a transição tecnológica no rastreamento do câncer de colo do útero.

