EUA buscam controlar Groenlândia para frear avanço chinês no Ártico

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Analistas em relações internacionais e geopolítica apontam que a intenção norte-americana de tomar o controle da Groenlândia tem ligação direta com o esforço de dificultar o trânsito comercial da China nas novas rotas árticas.

O avanço do degelo na região reduz distâncias entre continentes e tende a baratear fretes, aumentando o valor estratégico do Ártico. Observações de satélite da Nasa apontam que o gelo marinho está caindo 13% por década e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, ligado à Organização das Nações Unidas, avalia que o Ártico pode ficar sem gelo entre 2050 e 2070.

O efeito prático dessa transformação é ressaltado por especialistas que destacam o peso do transporte marítimo na economia mundial. “Com o aquecimento global, a rota do Ártico diminui o tempo de navegação entre a China e a Europa”, lembrou o major-general português Agostinho Costa, acrescentando que 80% do comércio global se faz pelos mares.

O major-general português Agostinho Costa, especialista em assuntos de segurança e geopolítica, explicou que os EUA já controlam praticamente todas as rotas comerciais e oceanos, mas que têm uma presença reduzida no Ártico. “[A anexação da Groenlândia] é uma política de controle de rotas marítimas com o objetivo de bloquear a China. Os EUA controlam o Pacífico e o Atlântico, agora falta controlar o Ártico. Eles vivem mal com a ideia de, em um oceano tão importante como é o Ártico, ter uma presença residual”. O militar é ex-vice-presidente da Associação EuroDefese-Portugal.

O cientista político Ali Ramos, autor de estudos sobre a Ásia, chamou a atenção para o impacto financeiro direto da Rota do Norte. “A Rota do Norte deve baratear o frete marítimo entre os continentes em mais de um terço.” A queda nos custos de transporte é um dos fatores que motiva a competição pela influência na região.

Em análise publicada pelo Instituto do Ártico, o especialista Lee Mottola avaliou a posição russa na área e as implicações para a navegação. “Se a Rota Marítima do Norte se tornar um elo vital no transporte marítimo global, o controle quase total da Rússia sobre a rota lhe daria uma alavanca econômica e diplomática para expandir sua influência regional”. Mottola acrescentou que a China busca usar o Ártico para contornar pontos de estrangulamento tradicionais como os estreitos de Malaca e de Gibraltar.

Outra avaliação de Mottola reforça o temor ocidental sobre a aliança sino-russa. “A continuidade da cooperação sino-russa em fatores econômicos e estratégicos é uma razão importante para que a Otan redobre seus esforços e atenção no Norte”. O argumento explica parte da reação das potências ocidentais ao aumento da atividade chinesa e russa no Ártico.

Documentos oficiais também refletem essa mudança de prioridade. Em publicação de 2024 durante o governo do americano Joe Biden, o Departamento de Defesa dos EUA destacou a necessidade de uma nova abordagem estratégica para o Ártico. “Grandes mudanças geopolíticas estão impulsionando a necessidade desta nova abordagem estratégica para o Ártico, incluindo a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, a adesão da Finlândia e da Suécia à Aliança da Otan, a crescente colaboração entre a República Popular da China (RPC) e a Rússia e os impactos acelerados das mudanças climáticas”. O relatório coloca o oceano como elemento-chave na competição entre grandes potências.

A geografia favorece Moscou em termos de infraestrutura e presença. A Rússia detém 54% do litoral do Ártico, proporção que, segundo analistas, confere a Moscou capacidade relevante para definir rotas e influenciar o tráfego marítimo regional.

O cenário político inclui também ameaças diretas por parte de Washington. Desde que assumiu seu segundo mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, tem ameaçado invadir e anexar a região. “Precisamos da Groenlândia para nossa segurança nacional. Se você olhar para Groenlândia, olhar para cima e para baixo da costa, tem navios russos e chineses por todas as partes”. A declaração foi feita um dia após bombardear e invadir a Venezuela.

Além da dimensão estratégica, a Groenlândia tem características demográficas e políticas específicas que a tornam alvo cobiçado. Com apenas 56 mil habitantes, é um território semiautônomo do Reino da Dinamarca, o que coloca questões legais e diplomáticas em primeiro plano diante de propostas de anexação.

O major-general Agostinho Costa traçou um paralelo histórico sobre a postura recente de Washington. “A primeira coisa que Trump fez quando assumiu o poder foi falar que queria o Canal do Panamá, que queria o Canadá como 51º estado dos EUA e que quer a Groenlândia. É uma estratégia que nos faz voltar ao século 15 ou 16, da pirataria, do controle dos mares”. A comparação sublinha, segundo Costa, uma estratégia centrada no domínio de rotas marítimas.

Analistas ouvidos pela reportagem apontam que a disputa no Ártico envolve decisões militares, econômicas e diplomáticas simultâneas, e que a consolidação de bases e capacidades na região é vista como essencial por quem busca garantir vantagem nos fluxos comerciais futuros.

O debate sobre governança, presença militar e soberania na Groenlândia segue em evidência, com documentos oficiais, observações científicas e análises estratégicas convergindo para a conclusão de que o Ártico será cenário central das próximas disputas entre potências.

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