Riscos das canetas emagrecedoras: o que você precisa saber sobre os efeitos colaterais antes de usar
Uso indiscriminado de medicamentos para emagrecimento gera alertas de saúde e preocupação com danos digestivos e falsificações
A crescente popularização das chamadas “canetas emagrecedoras”, inicialmente desenvolvidas para tratar diabetes tipo 2, tem sido um foco de preocupação para as autoridades de saúde devido ao seu uso indiscriminado para perda de peso.
A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) alertou sobre os perigos do uso desses medicamentos sem acompanhamento médico, destacando os riscos substanciais para a saúde. O secretário de estado da Saúde, Beto Preto, reforçou a grande preocupação da pasta, em notícia divulgada pela Sesa em 29/08/2025.

O diretor geral da Sesa, César Neves, médico gastroenterologista, detalhou os danos potenciais ao sistema digestivo. “Eu sou médico gastroenterologista e sei que o uso dessas canetas podem causar desde refluxo, úlcera do esôfago, úlcera gástrica e até mesmo hemorragia gastrointestinal”, afirmou Neves na publicação oficial.
Efeitos colaterais e riscos associados
As canetas emagrecedoras, que pertencem à classe dos agonistas do receptor de peptídeo 1 semelhante ao glucagon (GLP-1RAs), atuam no cérebro para reduzir a fome e retardar o esvaziamento do estômago, promovendo saciedade. Contudo, assim como qualquer medicamento, elas apresentam efeitos adversos que variam de leves a graves.
Os mais comuns são gastrointestinais, incluindo náuseas, dor abdominal, refluxo, inchaço, vômitos, diarreia e constipação, manifestando-se frequentemente nos primeiros meses de tratamento. O gastroenterologista Décio Chinzon destacou que metade dos usuários pode interromper o tratamento devido a esses desconfortos.
A constipação é um efeito adverso relativamente comum, afetando de 4% a 12% dos pacientes, podendo chegar a 25% a 35% em pessoas com sobrepeso ou obesidade. A ingestão reduzida de líquidos, devido à sensação prolongada de estômago cheio, potencializa o problema. Embora os riscos mais graves sejam considerados baixos, casos de gastroparesia, obstrução intestinal e um leve aumento no risco de doenças da vesícula biliar foram relatados. Há também indícios de risco aumentado para pancreatite, embora estudos amplos não mostrem um aumento claro, indicando que eventos graves são raros sob orientação médica.
Falsificações e questões regulatórias
A ilegalidade agrava os perigos do uso das canetas emagrecedoras. Apreensões desses produtos falsificados têm se tornado rotina na fronteira do Paraná com o Paraguai. A Polícia Federal, em uma apreensão recente na Ponte da Amizade, encontrou 400 canetas escondidas sem refrigeração e sem controle de origem. César Neves alertou que esses produtos, sem identificação e lote, “podem causar um dano terrível ao trato digestivo”.

No Brasil, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) decidiu não incorporar esses medicamentos ao Sistema Único de Saúde (SUS) devido ao seu alto custo. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) definiu regras para a manipulação de canetas de GLP-1 e proibiu a manipulação de semaglutida, presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, uma decisão apoiada pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) pela dificuldade em garantir pureza e origem.
Contraindicações e manejo de sintomas
As contraindicações incluem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide (MTC) ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM2), devido a riscos observados em estudos com roedores. No entanto, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) não incluiu essa condição como contraindicação.
O uso também é contraindicado para pessoas com histórico de pancreatite, mulheres grávidas ou em amamentação, pacientes com diabetes tipo 1 ou cetoacidose diabética. O Dr. Chinzon explicou que “grávidas não podem tomar esses medicamentos porque eles não foram estudados nesse grupo, e há riscos potenciais para o feto, como defeitos congênitos, maior risco de aborto espontâneo e baixo peso ao nascer”.
Para mitigar os efeitos gastrointestinais, recomenda-se comer devagar, em pequenas porções, e evitar deitar-se após as refeições. Preferir alimentos leves e com baixo teor de gordura, além de manter a hidratação constante, são medidas importantes.
Para a constipação, aumentar a ingestão de fibras e líquidos, praticar atividade física e, em casos persistentes, considerar laxantes osmóticos sob orientação médica são estratégias eficazes. O Dr. Chinzon enfatizou que “a ingestão de líquidos deve ser constante, mas em pequenas quantidades de cada vez, e a prática de exercícios leves e momentos de ar fresco contribuem para a redução dos sintomas”.
A importância do acompanhamento médico
O emagrecimento seguro e eficaz depende crucialmente do acompanhamento profissional. O Dr. Chinzon alertou que “não existe uma caneta mágica capaz de consertar um estilo de vida inadequado”. Sem orientação, há riscos de desidratação, consequências de dietas muito restritivas e perda de massa muscular, além de a recuperação de peso ser comum após a interrupção do uso. O tratamento da obesidade exige uma abordagem personalizada, com avaliação clínica completa, exames laboratoriais e um plano que integre mudanças de hábitos e, quando necessário, medicação. “Alguns pacientes precisam de medicação, mas ela deve fazer parte de um plano mais amplo, que inclua outras mudanças de estilo de vida”, concluiu o especialista. A venda desses medicamentos em farmácias e drogarias é permitida apenas com retenção de receita, uma medida essencial para a segurança da população.
