Ataque dos EUA é ofensiva para fortalecer a extrema-direita na América Latina

news 156050 1767532569

Um ataque militar dos Estados Unidos contra a Venezuela é interpretado como parte de uma ofensiva do governo Donald Trump para fortalecer a extrema-direita transnacional na América Latina, segundo avaliação de especialistas. A professora Clarissa Nascimento Forner, do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, analisou a iniciativa como ação estratégica de longo alcance. “Isso reafirma esse aspecto estratégico que a gente observa no Trumpismo, que é a articulação das redes transnacionais de extrema-direita. Portanto, fortalecendo a extrema-direita na região e enfraquecendo possíveis governos ou partidos de oposição”

Clarissa contextualiza a operação lembrando que a aproximação com governos de orientação mais à direita já integra o projeto regional do governo Trump e que, simultaneamente, há uma ofensiva contra administrações que se posicionam contrárias. Ela destacou esse movimento como componente político organizado. “Por outro lado, [há] uma ofensiva clara a governos que se colocam na contramão dessas ideologias de extrema-direita.”

A professora ressalta que a utilização da força tende a produzir instabilidade interna na Venezuela e que uma ocupação ou administração militar norte-americana dificilmente resolveria a crise política local. Clarissa projeta consequências duradouras para o quadro interno venezuelano caso a pressão externa persista. “Pensando no território venezuelano, agora a tendência é que a gente observe esse cenário de instabilidade interna necessariamente e que dificilmente vai se solucionar com um período de intervenção ou de administração militar pela parte norte-americana, conforme colocado pelo Trump na coletiva”

Ao relacionar tática e objetivos, Clarissa atribui ao governo Trump um modus operandi que busca criar condições políticas para medidas que fogem a padrões legais, tomando como exemplo o trato dado aos líderes venezuelanos pela administração norte-americana. Ela apontou práticas que, na avaliação dela, se colocam à margem de normas internacionais. “Então [há] o próprio uso da força e esse processo de sequestro do presidente Maduro e da sua esposa como sendo um exemplo desse tipo de ação que escapa a qualquer tipo de norma de legalidade e sendo legitimada por essa ideia de que há uma crise em curso, de que há um combate ao crime.”

Além disso, a pesquisadora alerta para a possibilidade de novos episódios semelhantes na região, dado o tom e o alcance da retórica e das ações apresentadas pela Casa Branca. Clarissa aponta que a coletiva de imprensa norte-americana deixou espaço para interpretações sobre continuidade das operações. “Fica muito em aberto, no discurso da coletiva de imprensa, que a Venezuela não é o último caso, o último dos ataques possíveis, que há uma perspectiva de que outros casos possam a vir acontecer na região”

Contexto e antecedentes

O ataque dos Estados Unidos contra a Venezuela foi descrito por analistas como um novo capítulo de intervenções diretas de Washington na América Latina. A última operação de invasão em grande escala ocorreu em 1989 no Panamá, quando forças norte-americanas prenderam o então presidente Manuel Noriega sob acusações de narcotráfico.

Na ação recente contra a Venezuela, autoridades dos EUA acusaram o presidente Nicolás Maduro de liderar um suposto cartel identificado como De Los Soles, sem apresentar provas públicas, e a existência do grupo é questionada por especialistas em tráfico internacional de drogas. O governo de Donald Trump chegou a oferecer recompensa de 50 milhões de dólares por informações que levassem à prisão de Maduro.

Criticos internacionais interpretam a ofensiva como uma medida geopolítica destinada a afastar a Venezuela de potências adversárias dos Estados Unidos, como China e Rússia, além de assegurar maior influência sobre as vastas reservas de petróleo do país, apontadas como as maiores reservas comprovadas do planeta. Essas motivações são apresentadas por observadores como componentes centrais para entender a operação e seus desdobramentos regionais.

PUBLICIDADE


andorinha

Veja também