Fuzileira entra para a história como a primeira mulher a concluir curso de elite no Pantanal
A história das operações militares no Oeste brasileiro ganhou um novo capítulo com a conclusão do Curso Expedito de Operações no Pantanal, o C-Exp-OPant. Pela primeira vez em 36 anos, uma mulher suportou todas as etapas do treinamento e conquistou o brevê conhecido como “Jacarezinho”.
A Soldado (Fuzileira Naval) Júlia Maria resistiu a 47 dias de desgaste físico brutal, calor extremo e chuvas torrenciais na região de Ladário (MS). De uma turma inicial de 49 alunos, apenas 23 chegaram ao final, o que destaca o tamanho do feito da militar de 2024.
O desafio mental foi tão intenso quanto o físico. Júlia relata que a desistência nunca foi considerada uma alternativa durante o processo.
“Se os instrutores não me desligassem por insuficiência técnica ou saúde, eu não sairia. Para mim, desistir não era uma opção. O objetivo era voltar para casa com o brevê“, afirma a soldado.
Durante uma das etapas mais críticas, uma marcha de 12 km carregando mochila e armamento pesado, a estatura física da militar impôs uma dificuldade extra.
“Foi um dia muito quente e abafado. Como sou mais baixa, precisei me esforçar o dobro para acompanhar o ritmo dos outros militares, carregando mochila e fuzil”, relembra ela sobre o esforço necessário para não ficar para trás.
Origens e inspiração
A resiliência demonstrada na maior planície alagável do mundo foi forjada na rotina civil. Natural do Rio de Janeiro e criada na Ilha do Governador, Júlia cresceu em uma casa cheia e teve nos avós suas referências de disciplina.

O avô era sargento do Exército e a avó professora da rede pública. A vocação surgiu cedo, influenciada pela cultura pop e pelo esporte. “Desde criança, assistia aos filmes americanos, via os Fuzileiros Navais e pensava que um dia gostaria de ser como eles”, conta.
A prática de taekwondo na escola, sob tutela de um mestre que era bombeiro militar, reforçou esse caminho.
“As figuras que eu tinha como exemplo eram, em sua maioria, militares. Eu me via nelas”, diz Júlia. Antes de vestir a farda, no entanto, ela precisou conciliar os estudos com um emprego em uma rede de fast food. A aprovação no concurso da Marinha veio no limite do prazo etário. “Eu sabia que aquela era a minha única chance”, revela a militar, que hoje serve no 2º Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais, o Batalhão Humaitá.
Preconceito e superação
A decisão de encarar o ambiente hostil do Pantanal gerou reações mistas em seu círculo social.
“Quando dizia que faria o curso, me chamavam de louca, perguntavam por que eu não tentava algo mais fácil”, relata.
Apesar da desconfiança externa, ela encontrou apoio dentro da corporação, recebendo um brevê de presente do Terceiro-Sargento Wayonan antes da viagem.
Ao chegar em Mato Grosso do Sul, Júlia tomou a decisão de raspar a cabeça, não por obrigação, mas por estratégia operacional. Agora, ostentando o gorro marrom e o distintivo com a tríade Jacaré-Âncora-Louros, ela espera inspirar outras combatentes.
“Às vezes a gente duvida da nossa força. Mas quando vim para cá, vim decidida. Mesmo que não consigam de primeira, não desistam. Com foco e persistência, a vitória chega”, aconselha.

A emoção da conquista transbordou no contato com a família. “Liguei para minha avó quando acabou e ela atendeu chorando, dizendo que eu era o grande orgulho da vida dela. Disse que meu avô, se estivesse aqui, estaria muito feliz. Tudo o que passei valeu a pena por isso”, conclui a fuzileira.
Rigor técnico e novos recordes
O curso foi conduzido pelo 3º Batalhão de Operações Ribeirinhas na Área de Adestramento do Rabicho. O Comandante do batalhão, Capitão de Fragata Danilo Lopes da Silva, explica que a dificuldade reside na variação climática.
“Um dia está muito quente, no outro chove, depois vem a friagem. É uma área alagada, que exige do aluno grande capacidade de adaptação”, detalha o oficial.
A edição também foi marcada pela participação do Capitão de Fragata Francisco Leonardo Carvalho Amambahy Santos, futuro comandante da unidade, que decidiu fazer o curso como aluno e terminou como o “01” da turma.

“Ao longo da formação, foi possível compreender de forma mais próxima as peculiaridades da atuação no bioma, as dificuldades operacionais, as grandes distâncias e os desafios logísticos enfrentados. Vivenciar a rotina como aluno também permitiu perceber o elevado grau de esforço e desgaste da equipe envolvida na condução do curso, experiência que contribuirá para uma visão mais ampla e fundamentada no exercício do comando a partir de 2026”, avaliou o futuro comandante.
