Projeto Ártemis avalia genética de pacientes com AVC no SUS
Um estudo clínico iniciado no Brasil pretende identificar como variações genéticas estão associadas ao acidente vascular cerebral isquêmico e a fatores de risco cardiovasculares, com foco em aplicar esses dados no Sistema Único de Saúde.
A iniciativa, batizada de Projeto Ártemis-Brasil, é coordenada pelo Hospital Moinhos de Vento e tem financiamento do Ministério da Saúde por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde Proadi-SUS, com meta de incluir até o final de 2026 mil participantes divididos entre pacientes que já tiveram AVC isquêmico e controles saudáveis.
O estudo já foi iniciado e incluiu o primeiro participante em novembro passado, prevê a participação de 11 centros de referência distribuídos por todas as regiões do país e tem como objetivo comparar 500 pessoas que sofreram AVC isquêmico com 500 que nunca registraram a doença para identificar alterações genéticas associadas ao evento cerebrovascular.
A investigadora principal do projeto no Hospital Moinhos de Vento explicou o alcance do trabalho e a relação entre genética e fatores de risco.
“Hoje, a gente tem um entendimento melhor do quanto esse risco genético pode influenciar a chance de eu ter um AVC. Mas não somente isso, mas outras doenças que podem provocar um AVC, como pressão alta, problemas com o colesterol, diabetes”.
Com os dados genômicos, os pesquisadores pretendem avançar em medicina de precisão no SUS, tanto para prevenir o primeiro episódio como para reduzir a ocorrência de novos eventos em sobreviventes de AVC.
“Uma vez a gente podendo mapear melhor, analisando o que se chama hoje de genoma humano, que é esse grande livro de receitas que coordena e comanda como o nosso organismo funciona, a gente acha que vai ser muito bom para que, no futuro, possamos desenvolver novos medicamentos, ser mais precisos quando estamos indicando algum tratamento para alguém. Porque além de conseguir ver o risco de a pessoa ter um AVC, a gente também consegue ver como um organismo responde a um tratamento com base no seu perfil genético”.
O projeto integra o Programa Genomas Brasil e busca preencher uma lacuna importante da pesquisa genômica internacional, que tem baixa representação da diversidade genética latino-americana e brasileira.
A iniciativa prevê também capacitação de equipes do SUS em genética, aconselhamento genético e conceitos de medicina de precisão, com intenção de traduzir os achados em modelos de cuidado personalizados para a população atendida pelo sistema público.
A evolução do tratamento agudo do AVC no Brasil nas últimas duas décadas serve de contexto para a expectativa dos pesquisadores quanto ao impacto clínico do estudo, especialmente em centros de alta complexidade que já oferecem terapias para desobstrução de vasos e trombectomia mecânica.
“É muito parecido com o cateterismo que a gente faz no coração, só que nos vasos do cérebro”.
Apesar dos avanços, especialistas reconhecem a necessidade de ampliar o acesso a esses procedimentos, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, onde há áreas com vazio assistencial e menos centros capazes de realizar intervenções endovasculares.
O peso da doença no país reforça a urgência de estratégias mais eficientes de prevenção e tratamento individualizado.
“Os últimos dados mostram que ele voltou a ser a primeira causa de morte no nosso país e é a causa de maior incapacidade de todas as doenças”
Relatórios da Rede Brasil AVC mostram que o número de vítimas fatais por AVC foi de 85.427 em 2024, com registros anteriores de 81.822 em 2021, 87.749 em 2022 e 84.931 em 2023, e o Ministério da Saúde aponta que a doença permanece como principal causa de óbito e incapacidade no país com média de 11 óbitos por hora.
Além de mapear riscos, os pesquisadores esperam que o projeto informe políticas públicas e práticas clínicas mais alinhadas à diversidade genética brasileira, contribuindo para prevenção direcionada e escolha de tratamentos mais efetivos para cada perfil genético.
“Aí acaba entrando também o projeto Ártemis-Brasil, porque cada indivíduo é único na sua genética. E a gente, entendendo melhor como são essas características, consegue fazer uma prevenção muito mais precisa para essa pessoa. Pode indicar um tratamento específico, um regime de exercícios, alimentação, com base nesse perfil,”
Os responsáveis pelo estudo consideram que, dependendo dos resultados, o protocolo tem potencial para ser ampliado a outros países da América Latina, abrindo caminho para pesquisas colaborativas em populações diversas.
“Ele tem potencial grande de, no futuro, a depender dos resultados, ser expandido para outras regiões que possam se juntar na iniciativa”
O conjunto das informações consolidadas pelo Projeto Ártemis-Brasil servirá tanto à produção científica quanto à formação de profissionais do SUS, com o objetivo de traduzir evidências genéticas em intervenções clínicas e estratégias de prevenção mais precisas para a realidade brasileira.

