Brasil busca ser parceiro pleno da Asean em visita ao Sudeste Asiático
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, cumpre agenda oficial no Sudeste Asiático com duas prioridades centrais: reabrir o mercado da Tailândia à carne brasileira, fechado em 2024, e avançar no processo para que o Brasil seja elevado a parceiro de diálogo pleno da Associação de Nações do Sudeste Asiático
O governo brasileiro projeta que a mudança de status junto à Asean pode ocorrer já na cúpula do bloco entre 10 e 12 de novembro nas Filipinas ou a partir de janeiro de 2027, quando Singapura assume a presidência do agrupamento
Na conferência em Singapura, o chanceler colocou a candidatura brasileira ao centro das conversas com autoridades e empresários. “Dos doze Parceiros de Diálogo da Associação, nenhum vem da América Latina, do Caribe ou da África. O Brasil está disposto e é capaz de preencher essa lacuna, com pleno respeito a uma decisão que cabe aos onze membros da Associação”
Em seguida, Vieira reforçou a visão estratégica que orienta a iniciativa e o papel regional previsto para o Brasil. “O Brasil está convencido de que a América do Sul, como região, tem muito a ganhar com uma estreita cooperação com atores extrarregionais”
Relações comerciais e dimensão econômica
O comércio entre o Brasil e os países da Asean ganhou peso ao longo das últimas décadas, passando de US$ 3 bilhões em 2003 para US$ 38 bilhões em 2025, um aumento de dez vezes e uma taxa média de crescimento anual de 12% conforme dados oficiais
Nos três anos entre 2023 e 2025, as exportações brasileiras para os cinco maiores mercados do bloco, Singapura, Indonésia, Vietnã, Malásia e Tailândia, totalizaram US$ 68,5 bilhões, montante equivalente ao das vendas para cinco parceiros tradicionais do G7 no mesmo período
O balanço comercial também evidencia vantagens com a Asean que o Brasil quer aprofundar. Entre 2023 e 2025, o país registrou superávit de US$ 36 bilhões com os principais parceiros do Sudeste Asiático enquanto manteve déficit de US$ 36,6 bilhões com os cinco países do G7 citados
Atualmente, apenas doze Estados ou blocos gozam do estatuto de parceiro pleno junto à Asean e nenhum é latino-americano, lista que reúne Estados Unidos, União Europeia, Japão, Índia, China, Canadá, Rússia, Austrália, Nova Zelândia, Coreia do Sul, Turquia e Nações Unidas
Singapura e Tailândia na agenda
A missão ministerial começou por Singapura, onde Mauro Vieira foi recebido pelo titular da pasta local Vivian Balakrishnan e por representantes de cerca de vinte empresas dos dois países, encontro que visou ampliar laços comerciais e tecnológicos
Singapura aparece hoje como o segundo parceiro comercial do Brasil na Ásia e o primeiro dentro da Asean, com fluxo comercial de US$ 10,7 bilhões em 2025, alta de 23% em relação a 2024, segundo informe oficial
O Itamaraty informou que, em Singapura, foram abordados também pontos da agenda ambiental e que o chanceler se reuniu com a ministra do Meio Ambiente Grace Fu para tratar desses temas
Em agosto teve início a implementação do acordo de livre comércio entre Mercosul e Singapura, elemento que, na avaliação do governo, deve reforçar as conexões econômicas entre a América do Sul e o Sudeste Asiático
De Singapura o ministro seguiu para a Tailândia, em visita oficial entre 8 e 10 de setembro, com reuniões em Bangkok que reuniram empresários e ministros de Estado, entre eles o vice-primeiro-ministro e chefe da diplomacia Sihasak Phuangketkeow
As conversas com autoridades tailandesas visaram ampliar cooperação em comércio e investimentos, ciência, tecnologia e inovação e segurança alimentar, além de tratar de combate ao crime organizado transnacional
O Itamaraty registrou que as partes discutiram enfrentamento ao tráfico de pessoas e fraudes cibernéticas e destacou o apoio consular tailandês em operações de resgate de trabalhadores brasileiros. “O governo tailandês vem prestando apoio ao Brasil e mantido diálogo na área consular, que têm sido decisivos em diversas situações de resgate de trabalhadores”
O ministério também levantou a preocupação com casos recentes de brasileiros atraídos por promessas de emprego na região que resultaram em exploração em condições análogas à escravidão
No Bangkok Post, Mauro Vieira reafirmou a importância de vínculos mais estreitos entre as duas regiões e relacionou a iniciativa a um projeto de autonomia maior para os países do Sul Global. “Em um mundo marcado por tensões geopolíticas e pressões protecionistas, relações mais próximas entre a América Latina e o Sudeste Asiático podem ampliar nossa autonomia, apoiar nosso direito ao desenvolvimento e dar ao Sul Global uma voz mais forte”
Os membros da Asean são Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã, Timor Leste, Mianmar, Brunei, Camboja e Laos, informações que ajudam a situar a abrangência do bloco e o potencial de aprofundamento das trocas com o Brasil
Ao longo da missão, o Itamaraty buscou combinar objetivos comerciais imediatos com estratégia de longo prazo para consolidar o país como parceiro de diálogo pleno, posição que abriria caminho para maior integração em áreas econômicas e geopolíticas com o Sudeste Asiático

