Heterossexuais são 52% dos novos casos de HIV em Mato Grosso do Sul
Mudança no perfil epidemiológico acende alerta para prevenção entre população heterossexual.
Mais da metade dos novos diagnósticos de HIV registrados em Mato Grosso do Sul entre 2021 e 2025 ocorreu em pessoas que se declaram heterossexuais. O percentual de 52% contrasta com os 19% atribuídos à população homossexual, segundo levantamento do Ministério da Saúde. Em Campo Grande, a diferença é ainda maior: 57,4% dos casos positivos são de heterossexuais, contra 21,9% de homossexuais.
Os números refletem um fenômeno que preocupa infectologistas. A falsa sensação de segurança entre quem não se identifica como público tradicionalmente exposto ao vírus contribui para a baixa adesão aos testes. A médica Andyane Freitas, do Hospital Universitário da UFGD, explica que muitas pessoas em relacionamentos estáveis não se percebem vulneráveis e acabam adiando a testagem por longos períodos.
Diagnósticos tardios e saúde pública
A demora na descoberta da infecção tem impacto direto na saúde coletiva. Em 2024, o estado apresentou taxa de detecção de 27,2 casos por 100 mil habitantes, bem acima da média nacional de 17,4. Esse número representa um crescimento de 16,2% em relação ao ano anterior. Além disso, Mato Grosso do Sul ocupa a quarta posição no país no índice de CD4, com média de 258 células por milímetro cúbico, indicando que muitos pacientes chegam aos serviços de saúde já com o sistema imunológico comprometido.
A especialista ressalva que os dados não cruzam categoria de exposição, estado civil e estágio da doença, o que impede afirmar que a maioria dos diagnósticos tardios ocorra entre heterossexuais casados. Ainda assim, a predominância de casos entre esse grupo reforça a necessidade de ampliar o acesso à informação e à prevenção.
Prevenção e quebra de estigmas
Andyane Freitas alerta que esperar por sintomas graves é perigoso, já que o HIV pode permanecer assintomático por anos ou manifestar sinais parecidos com uma virose comum. A recomendação é incluir a testagem de ISTs na rotina de qualquer pessoa sexualmente ativa, independentemente de orientação sexual ou estado civil.
O SUS disponibiliza ferramentas como a PEP, que deve ser iniciada até 72 horas após a exposição de risco, e a PrEP, usada antes do contato com o vírus. Testes rápidos também estão disponíveis na rede pública. A médica destaca que eliminar o preconceito histórico é essencial para mudar os indicadores. “Precisamos divulgar isso, deixar a visão da AIDS no passado e finalizar a era do laço vermelho, cheio de estigmas. Não existe aparência, profissão, idade, estado civil ou orientação sexual que permita excluir a possibilidade de infecção. A percepção de não estar em risco não substitui a testagem”, completa.


