Dívida recorde dos EUA cresce por cortes de imposto, tarifas e juros altos

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O endividamento público dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez na história a marca de US$ 40 trilhões, evolução atribuída por economistas consultados pela Agência Brasil a cortes de impostos para os mais ricos, à inflação associada à guerra no Oriente Médio que pressionou combustíveis e às tarifas impostas por administrações anteriores.

Ritmo e composição do crescimento

Em apenas cinco meses a dívida aumentou cerca de US$ 1 trilhão, antecipando em anos a previsão do Escritório de Orçamento do Congresso dos EUA que estimava chegar aos US$ 40 trilhões apenas em 2027. Para tentar conter impactos na liquidez do mercado, a Secretaria do Tesouro anunciou aumento das operações de compra de títulos no mercado, que devem passar de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões a partir de 9 de setembro.

Além da velocidade do avanço, os especialistas apontam fatores estruturais que elevaram o déficit: manutenção de gastos militares próximos a US$ 1 trilhão e o crescimento das despesas com juros, que chegaram a US$ 1,1 trilhão, mais que o dobro dos US$ 419 bilhões pagos em 2021.

Solvência, mercado e política

O professor do Instituto de Economia da Unicamp Pedro Paulo Zahluth Bastos ponderou sobre a capacidade de pagamento dos EUA e ofereceu contexto técnico sobre a solvência do país. “Um governo assim não quebra contra a vontade. Se o mercado não quiser esses títulos ao preço corrente, o FED [Federal Reserve, o Banco Central dos EUA] pode comprá-los. Foi o que fez em 2020, quando expandiu o balanço em quase US$ 3 trilhões em três meses. E foi o que fez entre 1942 e 1951, quando travou o juro dos títulos longos em 2,5%”. Bastos acrescentou que essa possibilidade reduz o risco de insolvência imediata, ainda que crie outros desafios de política monetária.

O economista Pedro Faria, do Instituto Economias e associado ao Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG, avaliou a cifra em relação ao tamanho e à prática das economias avançadas. “A gente sempre compara com o tamanho do país e com a realidade econômica ao redor. É uma realidade das principais economias desenvolvidas estarem em déficit desde 2008”. Faria ressaltou que a leitura do montante isoladamente não é suficiente para medir capacidade de pagamento.

A política fiscal também aparece entre as causas diretas do aumento do endividamento. A adoção de cortes tributários para os mais ricos nos dois mandatos de Donald Trump, e novas reduções aprovadas em 2025, reduziram receitas e elevaram projeções de déficit. “O Trump aposta nessa política característica dos republicanos, que é tirar a tributação dos ricos sob a justificativa de tentar expandir a economia. O que se vê é um aumento do endividamento dos EUA no governo Trump 2 por conta dessa abordagem de política econômica”. O projeto de 2025 com cortes fiscais ampliou a previsão do déficit em US$ 4,7 trilhões em dez anos e, no mesmo horizonte, promoveu cortes de cerca de US$ 1 trilhão na saúde pública.

Sobre a distribuição dos efeitos, Pedro Bastos destacou a consequência da redução de receita e a concentração de ganhos financeiros. “A receita do imposto sobre lucros caiu 23% neste ano fiscal. Já os juros vão para quem tem títulos: fundos, bancos e as famílias mais ricas. O 1% mais rico detém metade das ações do país”. O professor ainda comparou a carga tributária dos EUA, cerca de 25% do PIB, com a média da OCDE, de 34% do PIB, para sublinhar a tese de que os Estados Unidos arrecadam menos do que países semelhantes.

Analistas também apontam efeitos políticos e de confiança que pressionam os juros de longo prazo. Para Pedro Bastos, ações da administração americana elevam a percepção de risco e afetam a demanda pelos títulos. “Por exemplo, o uso do acesso ao mercado americano como chantagem [tarifas]. Os bancos centrais compram ouro em ritmo recorde desde 2022 por isso, não pelo tamanho da dívida. Se a dívida um dia virar problema, não será por chegar a US$ 40 trilhões ou US$ 50 trilhões. Será porque a política destruiu o que a tornava desejada”. Essa percepção, somada à inflação vinculada ao conflito no Oriente Médio e a disputas comerciais, tem empurrado para cima o rendimento dos títulos públicos de 30 anos, que alcançaram 5,33% em 18 de agosto, o maior nível desde 2007.

Apesar do aumento dos rendimentos, o mercado continua a comprar papéis americanos e grande parte da dívida está em mãos domésticas, o que também reduz o risco de calote por insolvência. Cerca de dois terços do estoque de dívida estão nas mãos de agentes domésticos, US$ 4,5 trilhões estão no próprio FED, US$ 8 trilhões permanecem sob posse do próprio governo e aproximadamente US$ 32 trilhões estão em circulação no mercado. No total, o mercado detém perto de 100% do PIB em dívida, um patamar lembrado por comparações com o recorde de 106% registrado em 1946 ao fim da Segunda Guerra Mundial.

Houve ainda mudanças nas reservas externas de outras economias em resposta à conjuntura. A China reduziu sua posição em títulos do Tesouro americano de US$ 1,3 trilhão em 2013 para cerca de US$ 700 bilhões, sem provocar a desvalorização do dólar, que continua representando 57% das reservas mundiais, seguido pelo euro com 20% e o yuan com 2%.

Especialistas consultados reiteram que o risco de um calote seria de natureza política, caso o Congresso resistisse a autorizar o aumento do teto da dívida, e alertam para o efeito secundário do quadro sobre outras economias. Economistas ouvidos pela Agência Brasil apontam que a trajetória fiscal dos EUA tende a pressionar países como o Brasil a manter níveis de juros mais elevados em meio a incertezas globais.

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