Morre aos 81 anos Seu Vicente guardião da língua Guató no Pantanal
Vicente Manoel da Silva, conhecido na região como Seu Vicente, morreu nesta terça-feira (04/08/2026), aos 81 anos, dentro de sua própria casa, às margens do rio São Lourenço, na divisa entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Os Bombeiros de Mato Grosso do Sul, por meio da base avançada da Barra do São Lourenço, chegaram a prestar atendimento ao idoso. As primeiras informações apontam causas naturais para o óbito.
Nascido em 30 de maio de 1945, filho de pai e mãe Guató, Seu Vicente carregava um peso simbólico que ultrapassava os limites do Pantanal; era considerado um dos poucos falantes remanescentes da língua Guató, condição que o transformou em referência viva de um povo e de sua resistência cultural. Instituições, pesquisadores e moradores da região tratavam sua presença como patrimônio, não apenas como memória.
A notoriedade em torno de seu nome, porém, nunca mudou a rotina do pescador. Seu Vicente seguiu morando havia décadas no mesmo trecho do Pantanal ocupado por seus antepassados, pescando nos corixos onde gerações de Guató já haviam pescado antes dele. Usava canoa feita de um único tronco e mantinha vivo o uso de ferramentas tradicionais como remo, zinga, arpão, vara de pesca e zagaia. Também sabia tocar ganzá e viola de cocho, instrumentos ligados à musicalidade pantaneira.
Parte desse legado está registrada em materiais audiovisuais e em páginas especializadas, entre elas o Instituto Homem Brasileiro. Uma das canoas que construiu, feita de madeira ximbuva, foi doada por ele e hoje está exposta no Memorial do Homem Pantaneiro, como símbolo da importância dos povos canoeiros para a preservação do território.
Vida dividida entre família e Pantanal
A casa em que vivia já abrigou a mãe, dois irmãos e dois tios de Seu Vicente. Com o tempo, ele passou a morar sozinho, tendo o Pantanal como única companhia constante. Sua mãe, Júlia, e um dos tios, José, estão enterrados perto da residência, em um local tratado pela família como sagrado.
O contato entre Seu Vicente e instituições da região era frequente. Segundo o Instituto Homem Pantaneiro, que mantém trabalho de monitoramento socioambiental na Serra do Amolar, a equipe social da organização havia visitado o idoso em maio deste ano. Brigadistas, funcionários do Parque Nacional do Pantanal Matogrossense e moradores da Barra do São Lourenço também costumavam procurá-lo diretamente, reflexo do respeito que ele acumulou entre diferentes gerações e instituições ao longo da vida.
Conforme informações preliminares, a Secretaria de Saúde Indígena vai enviar uma urna funerária para a região nesta quarta-feira (05/08). Até o momento, não há detalhes definidos sobre o sepultamento de Seu Vicente.
