Ministro da Fazenda repudia presidente da Fiems por barrar deputada em evento

Dario Durigan e Camila Jara durante agenda institucional relacionada à Fiems em Campo Grande

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, repudiou a conduta atribuída ao presidente da Fiems, Sérgio Longen, após a deputada federal Camila Jara, do PT de Mato Grosso do Sul, ter sido impedida de participar de compromissos na Casa da Indústria, em Campo Grande, na quinta-feira (30). A parlamentar integrava a comitiva do ministro, que participou de uma série de agendas na capital e palestrou para empresários na sede da federação.

Durigan defendeu o direito da congressista de acompanhar as reuniões e declarou que eventuais divergências pessoais não deveriam interferir na agenda oficial. “Gostaria de deixar aqui de público essa nota de repúdio minha a essa situação. Para além de qualquer questão pessoal que eu desconhecia, a deputada Camila Jara é uma representante do povo sul-mato-grossense que merece ter assento em qualquer evento, em qualquer reunião que a gente tenha aqui, em especial me acompanhando na condição de ministro da Fazenda”.

O ministro informou que não recebeu de Longen uma explicação para a restrição e que tomou conhecimento do problema após tentar retornar ligações feitas por Camila. “Ele não me deu justificativa. Houve ali uma série de pedidos, mas, como a noite fica tudo um pouco confuso, eu não entendi qual era a justificativa dela não ter acessado o prédio. E depois me parece ter sido esclarecido que foi por uma questão pessoal, o que é muito ruim. Nós não podemos confundir questões pessoais com questões profissionais e, em especial, envolvendo uma deputada federal que é representante do povo”.

Durigan também mencionou a informação repassada pela deputada de que o episódio teria um componente machista, avaliação que, conforme o ministro, não combina com sua forma de atuação. Camila declarou que Longen teria ameaçado cancelar um jantar com o ministro e empresários caso ela participasse do encontro, medida que seria uma retaliação aos pedidos de investigação sobre a gestão financeira da Fiems.

Articulação para a agenda na Fiems

A escolha da Casa da Indústria ocorreu após uma articulação de Camila, de integrantes do governo federal e do presidente do Comsefaz, Flávio César Mendes de Oliveira, conforme o relato da parlamentar. Mesmo diante das denúncias já apresentadas contra a gestão de Longen, ela apoiou a realização da reunião no local para preservar o diálogo entre o Ministério da Fazenda e o setor industrial.

Camila acompanhava Durigan por indicação do partido e por integrar a Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados, na qual é a única representante de Mato Grosso do Sul. A pauta prevista incluía temas tributários e a subvenção fiscal, enquanto a senadora Soraya Thronicke também havia colocado sua participação à disposição.

As restrições, conforme Camila, começaram no início da agenda técnica, quando um assessor do presidente da Fiems informou que ela não poderia entrar, mas a deputada acessou o espaço. A parlamentar relatou que Soraya também foi barrada antes de entrar na reunião e que assessoras do ministro tiveram a entrada proibida.

Durante a entrevista coletiva, Camila informou que uma assessora pediu que ela deixasse o local por ordem de Longen, mas ela permaneceu por ter sido convidada pelo ministro. A deputada sustentou que representantes da bancada governista devem acompanhar entrevistas de ministros do governo, conforme orientação da Secretaria Nacional de Comunicação.

A nova tentativa de impedir a presença da congressista ocorreu quando os convidados seguiam para o jantar destinado à continuidade dos debates tributários. “Na hora que eu fui entrar no elevador, uma assessora já colocou a mão de uma maneira impositiva, impedindo, com toque físico, eu de entrar. […] Aí eles seguraram os elevadores e falaram: ‘Não, você não vai entrar porque existe uma ordem que você tá proibida’”.

Camila relatou que telefonou para Durigan ao perceber que não conseguiria seguir com a comitiva e que recebeu a informação de que Longen condicionava a realização do jantar à ausência dela. “Ele [Durigan] falou: ‘Camila, o presidente [Longen] foi extremamente incisivo e disse que vai cancelar o jantar se você subir. [Ele] deixou claro que é porque você e o deputado Vander pediram seriedade nas investigações […] em relação à Fiems’”.

A deputada classificou a exclusão como retaliação política ligada à sua atuação parlamentar e aos pedidos de apuração envolvendo a federação. Para Camila, a postura da direção também demonstrou maior preocupação com assuntos internos do que com o desenvolvimento econômico e industrial de Mato Grosso do Sul.

Após publicar um vídeo sobre o episódio nas redes sociais, Camila informou que recebeu novas denúncias de trabalhadores relacionadas a empresas de Longen e à própria Fiems. Entre os relatos apresentados à parlamentar estão o de um funcionário que teria sido demitido depois de reclamar das condições do local de almoço e queixas de empregados da federação dispensados após denunciarem assédio.

A Fiems foi procurada para apresentar sua versão sobre as acusações e sobre as restrições impostas durante a agenda, mas não se manifestou até a publicação da reportagem .

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