Agosto Dourado inicia com mobilização pelo aleitamento materno no país

A mobilização que abre o Agosto Dourado foi pautada pela diretriz internacional da World Alliance for Breastfeeding Action que sugere fortalecer práticas comprovadas para um início de vida sustentável, e o Ministério da Saúde reforça que, neste mês, as ações de apoio à amamentação se ampliam. “O aleitamento materno é fundamental para a nutrição adequada, a garantia da segurança alimentar e a redução da pobreza no país.”

O reconhecimento oficial da importância da amamentação chega simultaneamente ao relato de famílias que retomam experiências com o aleitamento. A dona de casa Lorrany Duarte, que teve a filha Elisa há uma semana, planeja oferecer leite em livre demanda e de forma exclusiva nos seis primeiros meses, e resume as razões pessoais para insistir no peito: “Desenvolve mais a criança e a imunidade fica sem problemas.”

No relato sobre a primeira filha ela recorda dificuldades que pesam na decisão atual, “Ela sempre foi muito debilitada, passava mal, sempre ficava doente e demorou muito tempo para crescer, para se desenvolver”. Para enfrentar os impedimentos iniciais no aleitamento da segunda filha, Lorrany tem contado com a experiência da irmã Marielly Duarte, que acompanha a amamentação e ensina técnicas de extração do leite, com resultado rápido, “Eu já tirei um monte de leite dela na bomba [de sugar o leite]. É melhor do que tirar na mão. Agora, uma semana depois, já está saindo rapidinho. Tornou-se mais fácil”

Fórmulas infantis e pressões comerciais

O cenário de escolha entre peito e produto industrial também foi destacado por especialistas, que apontam a influência da desinformação e do marketing como barreiras ao aleitamento. A presidente do Departamento Científico de Aleitamento Materno da Sociedade Brasileira de Pediatria, Rossiclei Pinheiro, alertou para o assédio da indústria sobre profissionais e famílias, “O que a gente percebe é que há um marketing muito grande dizendo que essas f órmulas substituem o leite materno, e não substituem. […] É o lobby na porta do hospital, nas redes sociais, nos consultórios, nas datas festivas. Essas indústrias de alimentos tentam de várias formas fazer um assédio ao profissional de saúde”

A especialista observou que a indicação e o uso de fórmulas devem ocorrer apenas em situações clínicas específicas. “A fórmula é segura e necessária apenas quando há recomendação de um pediatra ou nutricionista” e acrescentou outra ressalva ao uso indiscriminado, “Só quem pode prescrever fórmula infantil até um ano de idade é um médico, de preferência um pediatra ou nutricionista. Só que a mãe chega, hoje, em uma farmácia e compra a fórmula que quiserem, que qualquer profissional prescreve.”

Rossiclei classificou as fórmulas infantis como alimentos ultraprocessados voltados a casos concretos como mães com contraindicação médica para amamentar, situações em que a mulher não pode realizar o aleitamento ou não obtém sucesso, e bebês com alergias. “O leite materno vai ser o melhor para o resto da vida da criança”

Proteção legal e recomendações

No âmbito regulatório, o Brasil conta com a Norma Brasileira de Comercialização de Alimentos para Lactentes e Crianças de Primeira Infância amparada pela Lei 11.265 2006, que proíbe patrocínios a médicos em pessoa física, impede a propaganda de mamadeiras, bicos artificiais e chupetas, veda a distribuição desses produtos a recém-nascidos de alto risco e limita o uso de imagens e frases nas embalagens que possam induzir dúvida sobre a capacidade materna de amamentar.

As restrições legais se alinham aos alertas da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre os efeitos do uso de bicos artificiais que podem comprometer o aleitamento, causando confusão de bicos por alterar a mecânica de sucção da criança com o bico artificial, menor estímulo para a produção de leite e desmame precoce. “Nós desestimulamos o uso de bicos que possam competir com a amamentação, que são as chupetas e as mamadeiras”

A pediatra também ressaltou a dimensão socioeconômica da promoção do aleitamento, conectada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, e listou benefícios diretos para as famílias e para a economia doméstica, “A família tem uma redução dos custos financeiros, visto que não vai precisar comprar fórmulas nem medicamentos, já que esse bebê vai ficar menos doente, e também vai ter menos ausência ao trabalho. Por fim, a mãe vai conseguir se programar melhor na vida futura para seu retorno ao trabalho, já que o filho dela vai estar mais saudável, listou a dra. Rossiclei Pinheiro”

A Semana Mundial do Aleitamento Materno de 2026 busca reforçar o reconhecimento e a ampliação de estratégias que já demonstraram resultados positivos na proteção e promoção do aleitamento. Em agosto de 2024 o Brasil assumiu a meta de atingir 70% de aleitamento materno exclusivo nos primeiros seis meses de vida até 2030, percentual superior ao objetivo de 60% estabelecido pela Assembleia Mundial da Saúde.

O avanço brasileiro tem histórico de crescimento, com salto de 4,7% na década de 1980 para 45,8% em 2019 segundo a primeira edição do Estudo Nacional de Nutrição Infantil coordenado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. A pesquisa nacional ainda realiza em 2025 a coleta de dados domiciliares para avaliar práticas de amamentação, consumo alimentar e estado nutricional de crianças até seis anos.

Ao conectar metas, regulações e relatos de famílias, a agenda nacional para o Agosto Dourado combina medidas de proteção legal, formação profissional e apoio direto às mães como estratégias centrais para ampliar o aleitamento materno no país. “Nossas políticas públicas estão interligadas com todo o contexto do atendimento da criança. Hoje, por exemplo, o aleitamento materno é uma estratégia de saúde pública para diminuir a mortalidade infantil, a mortalidade materna, diminuir a desigualdade social. Todo esse acesso a informações é uma política pública”

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andorinha

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