Acesso à saúde é ampliado e reduz perdas em comunidades ribeirinhas do Amazonas
Dois pontos de atenção primária instalados em comunidades do Médio Juruá estrearam atendimentos presenciais e remotos com a meta de reduzir a necessidade de resgates por lancha e aproximar serviços de saúde de quase 4,7 mil moradores.
O modelo chamado SUS na Floresta levou consultórios, sala de triagem, consultório odontológico, conexão à internet e equipamentos de telessaúde às unidades de Bauana e Campina, que devem beneficiar 56 comunidades ribeirinhas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari e da região do Médio Juruá.
O projeto é realizado pela Fundação Amazônia Sustentável em parceria com BNDES e Umane, com gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e apoio técnico da prefeitura de Carauari e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas.
Expectativa de reduzir resgates e ampliar oferta
Profissionais que atuam nas novas unidades dizem que o atendimento local evitará deslocamentos longos para casos que podem ser resolvidos ali mesmo e que os casos de emergência serão estabilizados antes da transferência quando necessário.
“Aqui nós conseguimos fazer o que elas só conseguiriam na cidade ou então em uma vinda da UBS fluvial, que vem aqui duas vezes por ano devido à logística”
“Alguns pacientes que estiveram aqui com a gente relataram casos de antes do resgate e da existência desse ponto. Teve um paciente que perdeu dois filhos devido uma picada de cobra. Ele ficou 12 horas esperando [por socorro] e, nessa época, ainda não tinha essa tecnologia que tem hoje como aparelho celular. Mas como naquela época não tinha nem o resgate e nem o ponto, esse paciente veio a óbito”
O enfermeiro Antonio Carlos Alves Bezerra estimou que a presença desses pontos pode reduzir em até 80 por cento as chamadas para resgate por lancha, porque muitos atendimentos de baixa e média complexidade serão feitos localmente.
Contexto histórico de perdas e demora no atendimento
A carência de assistência nos períodos anteriores à instalação do resgate por lanchas e à presença de serviços mais regulares resultou em relatos frequentes de mortes e sequelas entre ribeirinhos, segundo relatos colhidos na região.
Francisco Solivan Peres de Araújo lembrou a perda da mãe quando tinha dois anos e o contexto de isolamento daquela época.
“Deu uma hemorragia. Na época, não tinha possibilidade nenhuma de chegar na cidade”
Solivan é presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da RDS Uacari e disse que, se houvesse atendimento mais próximo no passado, muitas histórias trágicas teriam tido desfechos diferentes. Ele destacou que a RDS Uacari abriga 31 comunidades e mais de 409 famílias que vivem do extrativismo e da agricultura familiar.
Casos de demora no socorro e consequências graves também marcaram a memória de outros moradores. Adriana da Silva e Silva relatou as sequelas na perna após uma picada de cobra em janeiro de 2019 e a espera por atendimento.
“A gente chamou o resgate, só que no momento não estava disponível. Demorou mais de 24 horas para chegar o atendimento. Quando eu me desloquei da comunidade até a cidade, em razão das horas que eu passei, eu sofri muito devido ao veneno e não tinha soro. Aí minha perna inchou muito, ficou irreconhecível. Para não perder a perna, eles tiveram que fazer quatro cirurgias”
Raimundo Viana da Cunha recordou perdas familiares por falta de apoio na década de 1990 e a evacuação de parte da população em busca de serviços de saúde na cidade.
“Até os anos 90, aqui no Médio Juruá, a gente tinha pouca assistência em vários sentidos, mas a da saúde era a mais carente. Em 1994, a gente morava na comunidade Mandioca e o meu irmão adoeceu. Nessa época, a gente não tinha apoio de governo e das organizações de base, que hoje têm esse trabalho fortalecido. A gente dependia de regatão para fazer um deslocamento até a sede do município para ter um atendimento médico. E o meu irmão esperou uma semana doente sem ter nenhum barco passando. A gente não tinha condições próprias na época”
“Essa era uma situação comum até os anos 1997, quando as organizações, já mais um pouco fortalecidas, buscaram nossos direitos. E aí começou a ter um olhar especial para o Médio Juruá e foi quando essa situação começou a ter outro sentido. Mas, até essa data, muitas famílias sofreram essas calamidades nessa questão de doenças porque a gente não tinha um atendimento. Isso causou uma evacuação do Médio Juruá, de famílias que, assim como a minha, foram para a cidade em busca de ter um atendimento melhorado, já que nós não tínhamos isso aqui”
Para moradores, a alternativa não pode ser abandonar os territórios tradicionais em busca de serviços. Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS, comentou os riscos da migração e a importância de manter políticas que permitam às pessoas permanecer no território.
“Se as pessoas começarem a decidir ir embora de seus territórios, isso vai ser catastrófico. Primeiro por que quem é que vai cuidar do que está aqui? E segundo as cidades não estão, em hipótese alguma, preparadas para receber um êxodo rural. Você vai ter um boom de aumento em problemas sociais que já são latentes nos centros urbanos. Dentro das diversas Amazônias, a gente não pode esquecer que nós temos cidadãos brasileiros que precisam que as políticas cheguem. E se o governo, por um acaso, não está conseguindo interiorizar isso, é nossa obrigação apoiar”
O uso do resgate por lanchas como solução tem custo recorrente para o município. A oferta do serviço de remoção por lancha custa entre R$ 40 mil e R$ 45 mil por mês, conforme apontou o secretário de saúde de Carauari Manoel Brito, e as Unidades Básicas de Saúde fluviais realizam atendimentos de forma eventual devido ao alto custo logístico.
De acordo com informações do Ministério da Saúde, o governo federal aplicou R$ 500 milhões neste ano para implantar Equipes de Saúde da Família Ribeirinha compostas por médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e profissionais de saúde bucal e ampliou para 2.690 o número de municípios que podem requisitar serviços específicos voltados às populações das águas. Antes essa possibilidade existia apenas para 784 municípios da Amazônia Legal e do Pantanal Sul Mato Grossense.
O ministério informou ainda que já existem 332 equipes de Saúde da Família Ribeirinha e 71 Unidades Básicas de Saúde Fluviais em operação nas regiões atendidas.
Para gestores e executores do SUS na Floresta é imprescindível que os investimentos sejam mantidos e que parcerias com a sociedade civil continuem, porque a prefeitura isoladamente tem recursos limitados para espalhar unidades em todas as comunidades.
Valcléia Lima, superintendente geral adjunta da FAS, apontou os principais desafios para manter os pontos de saúde e garantir continuidade das ações no território.
“Um dos grandes desafios é o logístico e operacional: os custos de se estar aqui, de manter uma equipe de saúde aqui e que é responsabilidade da prefeitura. Também é desafiador captar recurso e conseguir convencer um parceiro [um financiador] de levar uma estrutura dessa para um lugar como esse. Muitas vezes ele quer investir em outras coisas e outras ações, mas isso aqui faz a diferença para quem está no território”
Moradores reforçam a necessidade de ampliar a rede local de saúde para evitar que distâncias e custos de deslocamento continuem a provocar mortes e sequelas evitáveis.
“É preciso implantar mais posto de saúde, tanto dentro da RDS quanto da Resex do Médio Juruá. O que divide as duas unidades é somente o rio. Uma reserva de um lado, a outra reserva é do outro. Mas as pessoas são as mesmas, a dor das pessoas é a mesma. A dor de um é a dor do outro”
Na primeira semana de funcionamento as novas unidades registraram atendimentos que antes só seriam possíveis na sede do município ou em vinda esporádica da UBS fluvial. Entre os atendimentos iniciais houve um caso de ferimento por anzol e um episódio grave de desnutrição infantil que demandou atuação intensa da equipe de enfermagem da unidade de Campina.
Relatório de implantação e avaliação preliminar das atividades ficará sob a responsabilidade dos parceiros do projeto e da prefeitura para embasar a ampliação das ações em outras comunidades da região.
*A repórter viajou a convite do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e da Fundação Amazônia Sustentável

