Projeto do SUS na Floresta leva atendimento médico a ribeirinhos do Amazonas
Duas unidades de saúde inauguradas na semana passada nas bases da Fundação Amazônia Sustentável em Campina e Bauana, no município de Carauari (AM), encurtaram o acesso a consultas e atendimentos para moradores de comunidades ribeirinhas e já evitaram chamadas de resgate por lancha.
As estruturas, instaladas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari, devem atender 56 comunidades e beneficiar cerca de 4,7 mil pessoas, conforme informações oficiais do projeto SUS na Floresta.
As unidades foram batizadas na ordem em que foram entregues: Raimundo Ribeiro de Lima (Saborá), inaugurada no domingo, 19, na comunidade de Bauana, e Laice Santos do Nascimento, aberta na terça-feira, 21, na região de Campina, ambas dentro de bases da FAS em Carauari.
Guilherme Sylos, diretor de prospecção e parcerias do IDIS, explicou o objetivo do projeto. “Um princípio fundamental deste projeto e de todos os participantes do Juntos pela Saúde não é criar uma estrutura paralela ao SUS, mas sim reforçá‑la. Os pontos de atendimento são implantados em parceria com as prefeituras e as secretarias municipais de Saúde, e os profissionais responsáveis pelo atendimento estão vinculados à rede pública e à Estratégia Saúde da Família”
As unidades oferecem consultórios para atendimentos presenciais e remotos, sala de triagem, consultório odontológico, conexão à internet e equipamentos de telessaúde, além de áreas para a permanência das equipes médicas e de enfermagem, integrando seus serviços ao Sistema Único de Saúde.
A aproximação da atenção primária busca prevenir agravamentos e manter continuidade de tratamentos em territórios onde deslocamentos por água podem levar dias, conforme explicou novamente Guilherme Sylos sobre os impactos do programa. “Ao aproximar a Atenção Primária das comunidades, o SUS na Floresta contribui para prevenir agravamentos, dar continuidade aos tratamentos e tornar efetivo o direito universal à saúde de acordo com as necessidades de cada território, que podem variar”
O projeto é executado pela Fundação Amazônia Sustentável em parceria com o BNDES e a Umame, com gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e apoio técnico da prefeitura de Carauari e da Secretaria do Meio Ambiente do Amazonas.
Aldeia ribeirinha e dificuldades de acesso são a realidade de muitas famílias da região. Aldeniza Silva e Silva, moradora de Boa Vista e grávida de sete meses, precisava antes viajar até a zona urbana de Carauari para fazer o pré-natal, um trajeto que pode levar dois ou três dias de rabeta conforme o nível do rio, e até agora passou por apenas três consultas quando o recomendado pelo Ministério da Saúde é um mínimo de seis.
Aldeniza relatou a mudança que a unidade trouxe à sua rotina. “Agora [a distância] é só de uma praia”
Aldeniza também comentou a possibilidade de realizar acompanhamento local. “Eu tinha que ir para Carauari fazer minha consulta, mas graças a Deus, tem esse posto aqui. Aí eu vim hoje me consultar”
Ao mesmo tempo, moradores destacam ganhos para outras demandas de saúde. “O médico falou que podia ser verme” referiu Aldeniza ao tratar da filha de seis anos que foi levada ao novo ponto de atendimento.
Outras vozes locais ressaltam a diferença no cotidiano. Cecilia Bispo de Lima, da comunidade São Francisco, descreveu como o atendimento próximo altera decisões de buscar socorro. “Caso a gente adoeça, tem um meio melhor para a gente ser atendido porque é perto daqui. Não tem nem comparação de ir na cidade, que é muito longe. Às vezes, não dá tempo nem de chegar lá. Que nem uma vez que eu adoeci da coluna e cheguei lá [na cidade], após ficar deitada na palha mesmo, deitada quase no porão, porque eu não aguentava mais ficar sentada”
O custo e o tempo de deslocamento também foram mencionados por moradores. “Para ir [o preço] é uma botija, R$ 160. Mas para vir é duas ou três” contou Maria Valkiane Freitas e Silva, da comunidade de Bauana
Os pontos já realizaram atendimentos que teriam demandado ambulância por rio, conhecidos como ambulanchas, segundo relato dos profissionais que trabalham nas unidades. O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra detalhou o tipo de casos atendidos no início das operações. “Atendemos desde atenção a ferimentos graves, que poderia ser uma indicação de resgate, até pré-natal. Já fizemos atendimentos de hipertensos além de outros, que são mais corriqueiros aqui, como gripe. Tem muito caso gripal, principalmente em crianças. São atendimentos que poderiam ser feitos tranquilamente aqui e que as pessoas não precisariam se deslocar até Carauri”
Jefferson Martins Honorato, enfermeiro deslocado para atuar em Bauana, explicou como a presença de profissionais tende a mudar comportamentos e oferecer tratamentos adequados. “Se eles tiverem, vamos supor, uma algia abdominal (dor de barriga), eles não vão querer ir até o município. Eles vão procurar um remédio caseiro. Mas se estiver aqui um profissional, um enfermeiro, um técnico ou um agente de saúde, eles vão nos procurar e vamos aplicar a medicação correta automaticamente. Se estivermos perto deles, eles vão nos procurar”
Honorato também relatou um atendimento recente que ilustra a demanda atendida. “Hoje uma paciente veio aqui comigo e enfrentou um ramal [um caminho] de 30 minutos para poder ser atendida aqui, com infecção urinária. Ela estava com muita dor, não tinha dormido a noite. Ou seja, meu trabalho é importante, eu me sinto honrado [de estar aqui]”
A técnica de enfermagem Denise de Sousa Brito comentou a diferença trazida pela telessaúde. “Antes o morador ia lá para a cidade só para ter uma consulta. Agora não, tem teleconsulta aqui no polo”
Segundo a secretaria municipal de Saúde de Carauari, Manoel Brito, cada unidade contará com um enfermeiro e um técnico em enfermagem que se revezarão por 15 dias, e haverá pré-agendamento para consultas médicas e odontológicas ao final de cada período, com possibilidade de teleconsulta quando necessário.
O SUS na Floresta começou a ser estruturado pela FAS em 2020, durante a pandemia de covid-19, com a proposta de manter atendimento mesmo em situações excepcionais provocadas por epidemias ou eventos climáticos, explicou Mickela Souza Costa, gerente do Programa Saúde na Floresta da FAS. “O sistema não estava preparado para as situações que envolvem calamidades públicas, sejam elas por meio de uma pandemia ou por meio de efeitos climáticos, como catástrofes. O mundo não está preparado. Nós não estamos preparados”
Ao todo, o projeto prevê seis pontos de atendimento na Amazônia; com as inaugurações em Carauari, já são três em operação, incluindo o primeiro ponto aberto em abril na comunidade do Ubim, em Eurinepé. Estão previstos ainda um ponto em Itapiranga, dois em Novo Aripuanã e um alojamento de apoio a profissionais em Uarini, com apoio do BNDES e da Umame.
Em relatos locais, casos de acidentes menores ilustram o impacto prático da iniciativa. Thiago Freitas Andrade, da comunidade de Xibuauzinho, contou o sofrimento antes do atendimento. “Estava doendo muito, eu passei duas noites sem dormir”
Em outro exemplo, o enfermeiro Jefferson Honorato relatou atendimento a uma criança que se lesionou com um anzol e a diversidade de situações resolvidas nas primeiras semanas de funcionamento das unidades.
Conforme divulgado pelo município e pelas organizações parceiras, os pontos de atendimento atuam de forma articulada ao SUS municipal e visam reduzir a necessidade de longas viagens por rio, bem como garantir vacinação, prevenção e acompanhamento contínuo de gestantes, hipertensos e outros pacientes crônicos.
*A repórter viajou a convite do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social e da Fundação Amazônia Sustentável (FAS)

