Lula defende que Mercosul inicie negociações com a China para acordo comercial
Na Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul realizada em Assunção na terça-feira, o presidente pautou a abertura de negociações com a China visando um acordo comercial entre o bloco e o gigante asiático, marcando a intenção brasileira de ampliar parcerias com mercados dinâmicos.
Ao destacar o avanço de conversas com outros parceiros e a estratégia regional, Lula ressaltou a sequência de passos que o bloco tem dado
“O Mercosul está avançando nos diálogos com Canadá, Índia e Vietnã. Nesta cúpula, daremos mais um passo ao lançar as negociações de uma parceria econômica com o Japão. Em breve, queremos fazer o mesmo com a China e seguir nos aproximando dos mercados mais dinâmicos do planeta”
O presidente também criticou alinhamentos e posturas que, segundo ele, reduzem a autonomia política dos países sul-americanos e fragilizam a atuação conjunta do bloco.
“Ninguém é dono do mundo. E ninguém é dono da América do Sul. Nenhum país do Mercosul ganhará mais liberdade de ação por meio de alinhamentos automáticos ou escolhas excludentes”
Antes de sua intervenção, Lula pediu um minuto de silêncio em homenagem às vítimas dos terremotos na Venezuela. Na sequência, avaliou o papel do Mercosul diante do recrudescimento do protecionismo global e de medidas unilaterais que, na sua visão, complicam comércio e desenvolvimento.
O presidente enfatizou ainda a relevância histórica e econômica do bloco e trouxe dados sobre a evolução do comércio intrabloco entre 1991 e 2025, com crescimento de US$ 4,5 bilhões para US$ 50 bilhões, e citou o aumento de 6% nas exportações em 2025, que alcançaram US$ 770 bilhões.
“O Mercosul permanece como o principal espaço institucional em uma região cada vez mais polarizada. O projeto de integração sul-americano deve estar acima de qualquer divergência ideológica. A melhor opção é fortalecer nossos mecanismos de diálogo e cooperação e ampliar nossa capacidade de atuação conjunta”
Focem e aporte brasileiro
Entre os temas centrais do encontro esteve a reformulação do Fundo para a Convergência Estrutural do Mercosul, o Focem, considerada necessária por dirigentes que avaliam o instrumento atual como insuficiente para reduzir desigualdades entre os países do bloco.
Em anúncio formal, o Brasil informou que destinará US$ 100 milhões por ano ao novo Focem ao longo de uma década, e colocou a inclusão da Bolívia no mecanismo como etapa complementar para mitigar assimetrias regionais.
“Estamos prontos para passar ao Focem 2 e aumentar a contribuição brasileira com aporte de US$ 100 milhões anuais ao longo de uma década. Incorporar a Bolívia ao fundo será um passo adicional para reduzir as assimetrias entre blocos”
O governo brasileiro cobrou que a Argentina eleve sua participação no fundo, enquanto autoridades paraguaias defenderam aportes 50% superiores aos do Focem anterior. Desde a criação do fundo em 2004, foram financiados mais de mil quilômetros de rodovias, 680 quilômetros de ferrovias, 750 quilômetros de linhas de transmissão e 100 quilômetros de redes de saneamento básico.
Segurança e cooperação regional
No campo da segurança pública, o Brasil apresentou proposta de pacto regional para enfrentar o feminicídio e a violência contra a mulher, além de celebrar o avanço na instalação de um escritório regional da Interpol em Buenos Aires voltado ao combate ao crime organizado.
Como parte do esforço de coordenação, o país se comprometeu a financiar a presença de delegados dos países da região na capital argentina por um período inicial de um ano
“O Brasil vai custear a presença de delegados dos 12 países da região na capital argentina por um ano, para ampliar a coordenação no combate ao tráfico internacional de drogas e ao crime organizado”
Além das propostas de segurança, foi informado o avanço em outras frentes comerciais com parceiros extrarregionais, com início de negociações com o Japão e movimentações recentes com Canadá, Vietnã e Índia, assim como o reconhecimento da nova Carteira de Identidade Nacional como documento válido para ingresso entre membros e Estados associados.
A cúpula reuniu líderes do Paraguai, Uruguai, Equador, Bolívia e do Chile, e marcou a transição da presidência pro tempore do Mercosul do Paraguai para o Uruguai pelos próximos seis meses. A ausência entre os estados-membros foi do presidente da Argentina, Javier Milei, que cancelou a viagem em razão da renúncia do chefe de gabinete da Casa Rosada, Manuel Adorni, envolvido em escândalos de corrupção por suposto enriquecimento ilícito.
O Mercosul é composto por Argentina, Bolívia em processo de adesão, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela suspensa, e conta com Estados associados entre os quais Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Panamá, Peru e Suriname. O bloco abrange cerca de 73% do território da América do Sul, aproximadamente 65% da população regional e responde por cerca de 70% do PIB do continente.

