Guterres diz que mundo não pode ignorar crise no Haiti e pede ação imediata
Em viagem ao Haiti na terça-feira, o secretário-geral das Nações Unidas percorreu um acampamento de pessoas deslocadas e voltou a cobrar uma resposta global diante do agravamento do quadro humanitário, classificando a situação como “a mais grave em curso no Hemisfério Ocidental e a que piora mais rapidamente”.
Durante a estada, a agenda incluiu encontro com a força internacional para alinhar apoio logístico no combate às gangues e uma reunião com o primeiro-ministro Alix Didier Fils-Aimé, que conta com apoio dos Estados Unidos e governa um país sem eleições desde 2016.
Guterres pediu rapidez na transição política, reafirmando a liderança dos haitianos para definir o futuro do país e a necessidade de apoio externo para viabilizar esse processo, conforme divulgou a ONU.
Impacto humano e números da crise
A violência que atinge áreas de Porto Príncipe e outras regiões já deixou, desde o início do ano, mais de 2,3 mil mortos e cerca de 1,1 mil feridos, segundo dados oficiais. O conflito entre grupos armados também provocou cerca de 1,5 milhão de deslocados internos em um país de aproximadamente 12 milhões de habitantes e gerou insegurança alimentar para cerca de 6 milhões de pessoas.
O texto divulgado pelas Nações Unidas destacou as vítimas mais afetas pela perda de segurança e proteção e chamou atenção para a condição de crianças e mulheres, introduzindo que “Com infâncias roubadas, o número de menores recrutados por gangues triplicou em apenas um ano. Atualmente, esses haitianos estão privados de proteção, educação e de um futuro. Outra questão é a da violência de gênero, que a cada dia registra a agressão de uma média de mais de 20 mulheres e meninas no país”.
Ao relacionar a escalada da violência com a ausência de atenção internacional, o chefe da ONU criticou a inação global como fator agravante e qualificou a omissão como “a maior desgraça” que se abate sobre o Haiti.
Ajuda internacional e sinais de recuperação
Equipes de agências internacionais e parceiros humanitários prestaram serviços essenciais a quase 3 milhões de pessoas no último ano, mas os recursos permanecem insuficientes, comprometendo a resposta. Conforme dados da ONU, o Plano de Resposta Humanitária mobilizou apenas 25% dos US$ 880 milhões necessários para atender às necessidades previstas em 2024.
Sobre o apoio financeiro e político, Guterres afirmou que “o Haiti não está pedindo caridade, mas que o mundo cumpra sua palavra em um momento em que não pode esperar” e ressaltou que esse compromisso externo é determinante para estabilizar o país.
Apesar do quadro crítico, o secretário-geral apontou sinais de mudança no terreno e disse que já houve avanços concretos na retomada de áreas de Porto Príncipe pelo Estado, introduzindo a ideia de esperança com a declaração “uma virada que já começou”. Em seguida ele acrescentou que “Por trás dos números, existe um povo de coragem admirável que recusa a se curvar diante da violência”.
Além do aspecto humanitário e político, Guterres também citou memória histórica do país ao relacionar episódios recentes de censura no campo esportivo com a herança de resistência haitiana. Referindo-se à Batalha de Vertières de 1803, ele lembrou que “o povo haitiano conquistou o impossível ao quebrar suas correntes e se libertar” e afirmou ainda que “esse mesmo espírito vive hoje”.
Na esfera esportiva, a seleção do Haiti teve de alterar o uniforme da Copa do Mundo por conter uma ilustração que fazia referência à luta pela independência, imagem considerada em desacordo com regulamentos da competição. O Haiti enfrenta o Brasil na sexta-feira, 19, às 21h30, em partida válida pela fase de grupos.

