Lula e Trump determinam solução para tarifas em 30 dias
Após encontro prolongado na Casa Branca, foi definida a criação de um grupo de trabalho entre ministérios dos dois países com prazo aproximado de 30 dias para apresentar um texto que busque encerrar o impasse tarifário e a investigação aberta pelos EUA.
Ao detalhar a orientação dada às equipes, Lula explicou o desenho do trabalho e o prazo para a proposta. “Eu falei assim: ‘Vamos colocar um grupo de trabalho e vamos permitir que esse moço [do Ministério] da Indústria e Comercio do Brasil, junto com o teu ministro do Comércio, sentem em 30 dias e apresentem para nós uma proposta para a gente poder bater o martelo’. Quem estiver errado vai ceder. Se a gente tiver que ceder, nós vamos ceder”
O procedimento norte-americano se baseia na Seção 301 da lei de comércio dos EUA e inclui acusações de concorrência desleal contra o Brasil, citando especificamente o Pix, tarifas sobre etanol, desmatamento ilegal e proteção de propriedade intelectual, informações que constam do processo em curso desde o ano passado.
Lula também afirmou que o tema do Pix não foi tratado durante a conversa entre os presidentes, o que foi registrado como parte das explicações oferecidas após o encontro.
Reação e tom do encontro
O encontro entre os presidentes durou mais de três horas e incluiu um almoço oferecido pelo lado norte-americano, e foi seguido por manifestações públicas nas redes sociais do presidente americano.
Trump descreveu a agenda do encontro como ampla e favorável, mencionando o conteúdo e a continuidade das tratativas. “muitos tópicos” e chamou Lula de “um presidente muito dinâmico”
Em postagem complementar, o presidente norte-americano avaliou os desdobramentos imediatos das conversas. “A reunião foi muito produtiva. Nossos representantes têm reuniões agendadas para discutir alguns pontos-chave. Outras reuniões serão agendadas nos próximos meses, conforme necessário”
Criminalidade transnacional e operações conjuntas
Além das negociações comerciais, os governos acertaram medidas de cooperação para enfrentar organizações criminosas com atuação em ambos os países, com foco em asfixiar financeiramente essas redes.
Na apresentação dos eixos de trabalho, Lula ressaltou a prioridade de reduzir a capacidade financeira das quadrilhas. “Precisamos destruir o potencial financeiro do crime organizado e das facções”
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, informou que haverá operações conjuntas entre a Receita Federal do Brasil e a contraparte norte-americana para bloquear contrabando de armas e outros produtos, incluindo o combate ao fluxo de drogas sintéticas originadas nos EUA, ampliando ações já previstas no acordo bilateral anunciado em abril.
O governo brasileiro deixou claro que não se discutiram especificamente designações de facções brasileiras como organizações terroristas, tema que preocupa autoridades e especialistas por implicar riscos à soberania e potencialmente prejudicar a cooperação judicial e policial.
Minerais críticos e mais comércio
Na pauta também houve diálogo sobre minerais críticos e terras raras, com destaque para a aprovação no Brasil da lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
Lula expôs a posição brasileira sobre parceria e industrialização desses recursos e reforçou a mudança de estratégia do país em relação à exportação de matérias-primas. “Qualquer um que quiser, o Brasil estará aberto a construir parceria. O que nós não queremos é ser meros exportadores dessas coisas. Não queremos repetir o que aconteceu com a prata na América Latina, com o ouro no Brasil, com o minério de ferro que a gente manda muito para fora e a gente poderia fazer um processo de transformação interna que a gente não fez. Então, com as terras raras, a gente vai mudar de comportamento”
Com reservas estimadas em cerca de 21 milhões de toneladas, o Brasil figura entre os países com maiores depósitos mapeados de terras raras, atrás apenas da China, embora apenas parte do território tenha sido analisada até o momento.
O governo busca atrair investimentos para transformar internamente recursos estratégicos e evitar ciclos de exportação sem industrialização, conforme discutido na Casa Branca.
Historicamente, a relação comercial com os EUA ganhou contornos de tensão desde 2025, quando tarifas de 25% sobre aço e alumínio foram impostas e, posteriormente, houve medidas adicionais e uma tarifa global temporária de cerca de 10% aplicada a alguns produtos, com exclusões pontuais mas manutenção de taxas elevadas para setores-chave.
O Brasil recorreu a instrumentos de retaliação e levou questões à Organização Mundial do Comércio, ao mesmo tempo em que realizou tratativas diplomáticas para limitar a escalada das medidas americanas.
Na comitiva que acompanhou Lula estavam os ministros Mauro Vieira das Relações Exteriores, Wellington César da Justiça e Segurança Pública, Dario Durigan da Fazenda, Márcio Elias Rosa do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Alexandre Silveira de Minas e Energia, além do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, presentes nas tratativas e nas conversas bilaterais.
Lula entregou a Trump uma lista de autoridades e familiares brasileiros que permanecem com vistos norte-americanos suspensos, mencionando casos que incluiriam membros do Judiciário e familiares de autoridades, com pedido de reavaliação das restrições.
A delegação brasileira retorna a Brasília ainda na noite de hoje com previsão de chegada na sexta-feira, mantendo a agenda de acompanhamento das rodadas técnicas que foram definidas durante o encontro.

