Cientistas anunciam painel para orientar a transição energética global
Um conjunto de cientistas de áreas como clima, economia e tecnologia anunciou no sábado, 25 de abril, a criação do Painel Científico para a Transição Energética Global, apresentado durante a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis em Santa Marta, Colômbia.
Autoridades e especialistas de repercussão internacional marcaram presença no evento e integraram o anúncio, inclusive pesquisadores brasileiros e o diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático.
Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, ressaltou o papel da ciência na articulação entre países com ritmos diferentes de avanço técnico e políticas públicas. “A transição energética é complexa e envolve economia, meio ambiente e justiça social. A ciência pode atuar como ponte entre países que avançam mais rápido e aqueles que ainda estão hesitantes. O painel é uma forma de integrar todos gradualmente”
A ministra do Meio Ambiente da Colômbia, Irene Vélez Torres, avaliou que a iniciativa responde a uma lacuna histórica ao dedicar um organismo especificamente ao afastamento dos combustíveis fósseis. “Este painel não só repara uma dívida ao criar, pela primeira vez, um organismo dedicado à superação dos combustíveis fósseis, como também discute outros desafios sociais e econômicos dessa transformação” Em seguida a ministra destacou o horizonte temporal do trabalho previsto. “É o primeiro concebido para reunir, ao longo dos próximos cinco anos, as evidências científicas que permitirão que cidades, regiões, países e coalizões deem esse grande salto”
Conforme informações divulgadas durante a conferência, o novo painel terá entre suas funções assessorar governos, elaborar recomendações técnicas, acompanhar políticas públicas e articular processos internacionais com agendas como a COP30 presidida pelo Brasil.
Claudio Angelo, coordenador do Observatório do Clima, defendeu o retorno da ciência ao centro das decisões climáticas e mencionou episódios recentes em que relatórios científicos perderam destaque em processos multilaterais. “Isso parece óbvio, mas vem sendo um pouco esquecido no âmbito da Convenção do Clima. Antigamente, todos os grandes encontros para debater mudança climática, como a Eco-92, começaram sob a égide de algum relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática” Na sequência ele alertou para um recuo nas referências científicas em decisões de cúpulas. “Isso deixou de acontecer de uns anos para cá. A gente chegou ao cúmulo de em 2018, na COP24, um grande relatório do IPCC, que tinha sido inclusive encomendado pela Convenção do Clima, ter sido relegado a uma nota de rodapé na decisão da COP”
O painel também foi descrito como ponte entre academia e governos, com foco em estratégias coordenadas de redução de emissões e medidas concretas de descarbonização, de acordo com os organizadores.
A Conferência de Santa Marta reuniu 57 países, entre eles o Brasil, e aproximadamente 4.200 organizações que representam governos, setor privado, povos indígenas, academia e sociedade civil, e tem como eixo três frentes de trabalho: transformação econômica, mudanças na oferta e demanda de energia e cooperação internacional.
Sob a liderança conjunta da Colômbia e da ministra do Clima e do Crescimento Verde dos Países Baixos, Van Veldhoven, os promotores colocaram expectativa de gerar resultados práticos no encontro, que consolida propostas entre 24 e 27 de abril e levará diretrizes à Cúpula de Líderes nos dias 28 e 29 de abril. “Com mais de 50% do PIB global representado nesta Conferência, este grupo tem a capacidade coletiva de transformar essas cinco palavras em ações concretas” Van Veldhoven acrescentou considerações sobre o momento propício para a mudança. “Com a crescente volatilidade no mercado de combustíveis fósseis, não há melhor momento para iniciar a transição para longe dos combustíveis fósseis, reduzindo o impacto climático, reforçando a independência energética e impulsionando o crescimento econômico verde”
O ativista sul-africano Kumi Naidoo apontou a conferência como oportunidade para avançar em compromissos que, segundo ele, a COP não tem conseguido assegurar de forma adequada. “Queremos receber o que pedimos para a COP desde pelo menos 2009: um acordo fantástico, que seja justo, ambicioso e vinculativo. Na maioria das vezes, recebemos acordos superficiais, cheios de brechas” Naidoo ainda destacou a necessidade de mecanismos jurídicos adicionais. “Independentemente da qualidade do trabalho científico, precisamos garantir que o processo político esteja em andamento. Outros mecanismos e caminhos juridicamente vinculativos, como o tratado sobre combustíveis fósseis, são cruciais”
Entre os cientistas presentes estavam os brasileiros Carlos Nobre, referência em estudos sobre a Amazônia, e Gilberto Jannuzzi, da Universidade Estadual de Campinas, que integraram a composição inicial do painel, conforme divulgado no encontro.
Os organizadores esperam que, com a participação ampla de atores públicos e privados, as diretrizes e mecanismos de cooperação internacional acordados em Santa Marta acelerem a redução da dependência de combustíveis fósseis e apoiem políticas públicas mais alinhadas com evidências científicas.

