América Latina deve transformar minerais críticos em indústria e empregos verdes
Lideranças latino-americanas reunidas no evento promovido pelo Ineep examinaram a oportunidade de converter as reservas regionais de minerais críticos e terras raras em cadeias industriais próprias que sustentem a transição energética e gerem empregos de melhor qualidade.
Andrés Camacho ex-ministro de Minas e Energia do governo de Gustavo Petro na Colômbia chamou atenção para a necessidade de avançar na agregação de valor. “Por exemplo, o lítio, encontrado em países aqui no Sul do continente. Precisamos avançar em direção à produção, não apenas para exportar lítio, mas também para aprimorá-lo, e não apenas como mineral, mas como baterias”
Dados apresentados no seminário reforçam a relevância estratégica da região no mercado global de insumos para tecnologias limpas. Conforme a Agência Internacional de Energia América Latina concentra cerca de 45% das reservas mundiais de lítio e 30% do cobre e reúne ainda depósitos relevantes de grafite terras raras níquel manganês prata e bauxita.
A análise sobre a cadeia de valor destacou também a concentração do processamento fora da região. De acordo com a AIE a China responde por cerca de 44% do refino global de cobre por 70 a 75% do processamento de lítio e cobalto e por mais de 90% do refino de elementos de terras raras e grafite de grau de bateria.
Ticiana Alvares diretora técnica do Ineep defendeu a internalização regional de insumos essenciais e mencionou a articulação entre países em setores além da mineração. “Essa internalização de bens e insumos essenciais talvez não possa ser feita de forma nacional, mas faz sentido de forma regional. Por exemplo, o tema dos fertilizantes, que o Brasil tem uma dependência gigante. Temos a Argentina, que agora é abundante em gás. Temos também a Bolívia abundante em gás. O gás natural é o principal insumo para a produção de fertilizante nitrogenado”
A mesma especialista ressaltou o efeito das crises sobre escolhas industriais. “Em um momento de crise, duvido que os países não queiram ter uma indústria no seu país”
Ticiana também trouxe a discussão sobre transferência de tecnologia e poder de negociação frente aos grandes atores globais. “A gente tem as matérias-primas dessas indústrias que são as indústrias energéticas do futuro. Não só energética, no caso dos minerais críticos, da inteligência artificial e tudo mais. A China não irá transferir tecnologia por vontade própria. A gente tem que dizer o que a gente quer. A China mesmo fez isso. Foi assim que a China foi avançando nas cadeias de valor”
Cecilia Nicolini deputada pelo Mercosul e ex-secretária de Mudanças Climáticas do governo argentino propôs que os países da região busquem participação nas etapas de maior valor agregado. “Você pode ter uma política de exportação de recursos, mas também podemos usar esses recursos para desenvolver algum tipo de tecnologia ou algum tipo de participação na cadeia de valor para ter um nível mínimo de poder de negociação [no cenário global]”
O debate considerou ainda o contexto geopolítico que torna esses recursos alvo de disputa entre potências. Um relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos de 2026 aponta que os EUA dependem de importações para mais da metade do lítio e para mais de dois terços dos compostos e metais de terras raras que consomem.
Na esfera política a Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos reafirma a intenção de limitar o acesso de rivais externos a ativos estratégicos no hemisfério e expõe uma postura mais ativa de Washington. “Negaremos a concorrentes de fora do Hemisfério a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais em nosso Hemisfério”
Recentes iniciativas externas também foram citadas como fator de pressão sobre as escolhas regionais entre comércio e soberania nas cadeias de valor. Em março deste ano a Casa Branca articulou uma coalizão militar com doze países latino-americanos alinhados ideologicamente com o objetivo de reduzir a influência de potências de fora do hemisfério.
O presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva defendeu que os países da região garantam acesso a todas as etapas de transformação desses recursos e enfatizou que o Brasil buscará reter maior parte do processo dentro do país. “Nós não podemos agora permitir que a riqueza que a natureza nos deu não permita que a gente fique rico”
Lula acrescentou a perspectiva de segurança nacional e a intenção de evitar erros do passado. “E o processo de transformação se dará dentro do Brasil. Não vamos repetir com os minerais críticos e com as terras raras o que aconteceu com o minério de ferro, com a bauxita. Vamos agora assumir a responsabilidade. Isso é uma questão de segurança nacional para nós”
O seminário promovido pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra em parceria com a Fundação Perseu Abramo e a Fundação Friedrich Ebert Brasil serviu como palco para a articulação dessas propostas que combinam industrialização regional e negociação estratégica junto a atores externos.
O repórter viajou a convite do Ineep para o Seminário Internacional Energia Integração e Soberania

