Peru registra disputa voto a voto entre ultraconservador e candidato de esquerda
A definição do adversário de Keiko Fujimori no segundo turno permanece em aberto após cinco dias de apuração, com 93,3% das urnas contabilizadas, e margem de menos de 3 mil votos separando o segundo do terceiro colocado.
Keiko Fujimori, com 17% dos votos válidos, já garantiu presença no segundo turno marcado para 7 de junho, segundo os dados oficiais parciais. O segundo posto oscila entre Roberto Sánchez Palomino, do campo de esquerda, que registra 12% dos votos, e o ultraconservador Rafael López Aliaga, com 11,9%.
Em números absolutos, Fujimori soma cerca de 2,6 milhões de votos entre um eleitorado de 27 milhões, Sánchez aparece com 1,890 milhão e Aliaga com 1,877 milhão. O Peru, quarto país mais populoso da América do Sul, tem cerca de 34 milhões de habitantes e faz fronteira com o Brasil ao longo de 2,9 mil quilômetros.
Gustavo Menon, professor da Pós-graduação de Integração da América Latina da USP, relaciona o resultado à rivalidade geopolítica comercial entre China e Estados Unidos.
“Roberto Sánchez se opõe vertiginosamente à plataforma encampada por Keiko Fujimori, que pretende se realinhar com os EUA. Ela já fez acenos a Donald Trump no sentido de recrudescer a política migratória e estancar a influência chinesa que se dá, sobretudo, via Porto de Chancay”
Keiko Fujimori, herdeira política do ex-presidente Alberto Fujimori, disputa pela quarta vez a presidência do país após derrotas no segundo turno em 2011, 2016 e 2021. O histórico familiar é elemento central na resistência a seu eleitorado.
Salvador Schavelzon, antropólogo e professor da Unifesp, destaca a carga simbólica dessa herança.
“Fujimori lembra no Peru da guerra contra o Sendero Luminoso, a reedição desse discurso antiterrorista, mas que, nas províncias, é associado às elites, ao neoliberalismo”
Roberto Sánchez foi ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo de Pedro Castillo e hoje é deputado pelo partido Juntos Pelo Peru. Sua plataforma inclui nacionalização de recursos, convocação de nova constituinte e ampliação de direitos trabalhistas, propostas que dialogam com o eleitorado rural.
Schavelzon descreve o perfil político de Sánchez e as contradições percebidas em sua trajetória partidária.
“É um nacionalismo popular que reivindica a cor da pele, o chapéu, que são símbolos importantes de um setor político que vem chegando aos poucos, mas com muita resistência por parte das elites. Ele busca dar uma resposta às maiorias que trabalham na terra, do interior, e tem prometido algumas reformas”
“Sanchéz vem dos jogos partidários, da velha política do Congresso, que acena para o povo, mas muitas vezes acaba sendo mais próximo das elites, talvez novas elites que se reposicionam. A gente viu isso em vários lugares da América Latina”
Rafael López Aliaga, ex-prefeito de Lima e líder do partido Revolução Popular, combina retórica ultraconservadora com defesa de liberalismo econômico, o que levou comparações com figuras como Donald Trump e Javier Milei. Aliaga chegou a liderar a apuração inicial, mas foi ultrapassado quando votos de áreas rurais foram agregados.
Schavelzon analisa o impacto de um eventual confronto entre Keiko e Aliaga no realinhamento internacional do país.
“Se o Peru tiver uma eleição em 2º turno entre Keiko Fujimori e Rafael Aliaga, quem sai fortalecido é o campo da extrema-direita. Haverá um realinhamento em direção à Casa Branca, a despeito dessa interdependência entre Peru e China do ponto de vista das relações comerciais”
Após a mudança de posição nas projeções, Aliaga passou a denunciar, sem apresentar provas, suposta fraude eleitoral. A campanha de Sánchez e observadores internacionais rejeitaram as alegações.
O partido Juntos Pelo Peru pediu calma institucional enquanto aguarda os resultados oficiais.
“Fazemos um chamado firme ao nosso povo para manter a calma, a vigilância democrática e a confianças nos canais institucionais, esperando com responsabilidade os resultados oficiais”
A Missão da União Europeia que acompanha o pleito não identificou indícios de fraude em seu relatório preliminar, embora tenha registrado atrasos em 13 locais de votação em Lima que afetaram cerca de 55 mil eleitores.
Especialistas advertem que, seja qual for o vencedor, a governabilidade deverá enfrentar obstáculos diante da fragmentação partidária e da força do Congresso.
“Independentemente quem seja o novo presidente eleito, a vida com o parlamento peruano não será fácil frente a essa pulverização dos partidos e do sistema eleitoral. Para formar uma base de governo, o presidente eleito terá que fazer uma série de concessões”
O contexto político recente do Peru é marcado por crises: em 2021 Pedro Castillo venceu Keiko Fujimori no segundo turno, foi deposto e preso após tentativa de dissolver o Parlamento e posteriormente condenado, em novembro de 2025, a mais de 11 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.
Dina Boluarte assumiu a presidência, repressões às manifestações geraram 49 mortes segundo a Anistia Internacional e ela própria foi destituída pelo Congresso em 10 de outubro de 2025. Em seguida, o país teve sucessivas mudanças na Presidência do Legislativo e no Executivo, com José Jerí e depois José María Balcázar Zelada assumindo interinamente em processos conduzidos pelo parlamento.
O processo de apuração prossegue e as atualizações dos resultados oficiais estão disponíveis em fontes e plataformas de acompanhamento público.

