Cessar-fogo é visto como pausa para os EUA se prepararem para novo ataque ao Irã

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O caráter frágil do acordo de cessar-fogo anunciado entre Estados Unidos e Irã, somado à manutenção de ampla mobilização militar norte-americana no Oriente Médio, levou analistas a avaliar que a trégua pode funcionar como uma pausa operacional para preparar um ataque massivo contra o Irã.

Rodolfo Queiroz Laterza, diretor do Instituto de Altos Estudos de Geopolítica, Segurança e Conflitos, analisou o desenho do acordo e apontou um propósito operacional, “Estamos vendo é uma pausa operacional para finalidades de possível reabastecimento de munições e das unidades da Força Aérea norte-americana para um bombardeio massivo e/ou também um desembarque terrestre. Esse cessar-fogo é bastante precário”. A avaliação situa a trégua como manobra para recompor capacidade antes de ação ofensiva.

Movimentação e logística

O especialista ressaltou o esforço logístico e a intensidade aérea em curso, com cerca de 500 aviões norte-americanos operando na região, número que corresponde a aproximadamente um quarto da frota aérea militar dos EUA, e a brigada de artilharia de Washington também mobilizada. Laterza acrescentou uma referência histórica para interpretar o padrão de ação, “Isso não indica paralisia ou acordo. Os EUA têm um padrão para se retirar dos conflitos. Eles promovem uma operação de bombardeio massivo, para gerar uma verdadeira terra arrasada, declaram vitória e se retiram. Isso aconteceu antes, no Vietnã do Norte, em 1972”. A comparação foi usada para sublinhar a possibilidade de uma ofensiva de grande impacto seguida de retirada.

Além das aeronaves, há movimentação de transporte logístico com aviões C-130 levando munição para a região, detalhe que reforça a leitura de reabastecimento e reposicionamento de recursos bélicos.

Capacidade de munição e pressão regional

Ali Ramos, cientista político e estudioso de Ásia, Teoria Militar e Defesa, avaliou a situação dos estoques e a capacidade industrial dos EUA e traçou limites para um conflito prolongado. Ramos destacou a produção anual norte-americana de mísseis e o impacto no abastecimento, “Só na primeira semana foram gastos 800 mísseis Patriot. Eles estão com estoques baixos. Esses mísseis também são fornecidos ao Reino Unido, Japão, Austrália, Canadá e outros países. Existe um problema de estoque muito grande e, por isso, os ataques iranianos estavam, cada vez mais, passando pelas defesas aéreas”. O dado aponta para desgaste das defesas aliadas e dificuldades de reposição imediata.

Ramos também avaliou que a trégua oferece janela para um ataque de grande escala, apesar das limitações americanas, “Eles estão muito desgastados. Só que podem fazer um mega ataque, proclamar vitória e tentar fazer com que o Irã ceda mais. Tentaram isso no Vietnã também”. O pesquisador acrescentou interpretação sobre pressões externas que levaram o Irã a aceitar a trégua parcial, “A China fez pressão para o Irã aceitar. Os países do Golfo provavelmente também. Nesse cenário, o Irã está mirando uma nova realidade estratégica na região para se posicionar como um ator moderado. Acredito que por isso que o Irã aceitou”.

As limitações industriais mencionadas por Ramos incluem estimativas de produção de cerca de 90 mísseis Tomahawk por ano e entre 500 e 600 mísseis Patriot por ano, números que alimentam a avaliação sobre esgotamento de estoques se a intensidade dos ataques se mantiver.

A vigência do cessar-fogo mostrou-se vulnerável ao novo ciclo de hostilidades, com a centésima onda de ataques atribuída ao Irã nesta quarta-feira, contra 25 alvos em Israel e em outros países do Oriente Médio, incluindo a Arábia Saudita, fato que especialistas usaram para evidenciar a precariedade da trégua.

O anúncio de possíveis ataques em massa tem sido também interpretado à luz da atuação israelense na região. Ali Ramos avaliou o papel de Israel na dinâmica e relacionou balanço interno do país às ações externas, “Israel torpedeou todos os cessar-fogo até o momento na região, foi contra todos eles. Existe uma questão de sobrevivência na política doméstica israelense para Benjamin Netanyahu, que depende, por conta das acusações de corrupção contra ele, permanecer em guerra. Acredito que Israel vai fazer tudo para que essa guerra retorne”.

O Irã condicionou a continuidade do cessar-fogo à aplicação da trégua em todas as frentes de combate e ameaçou romper o acordo diante de ataques israelenses contra o Líbano. Em entrevista à PBS News, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o Líbano não faz parte do acordo “por causa do Hezbollah”. A declaração foi utilizada para explicar limites e exclusões do pacto em vigor.

As avaliações conjuntas de analistas consultados pela Agência Brasil apresentam uma leitura coerente entre esgotamento de estoques, reforço logístico e pressões diplomáticas externas, concluindo que a trégua atual tem caráter temporário e operacional, sem garantir a suspensão definitiva das hostilidades.

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