Onça-pintada que circula próximo a Corumbá será removida para área de fronteira
Animal será monitorado após deslocamento para preservar a espécie e evitar conflitos em zonas urbanas
Pesquisadores e diversas instituições ambientais preparam a remoção de uma onça-pintada que vive nas proximidades de áreas urbanas em Corumbá. A informação foi confirmada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) nesta quinta-feira, dia 26, durante um painel da COP15 e divugada pelo site Midiamax.
A intenção é realocar o felino em uma área de reserva na fronteira de Mato Grosso do Sul com a Bolívia, permitindo que ele possa até mesmo transitar para o país vizinho.
A decisão pela mudança ocorre porque, apesar da região ainda oferecer alimento natural, o crescimento da cidade e a consequente perda de habitat natural impedem que o animal permaneça no local de forma segura.

O coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação dos Mamíferos Carnívoros (Cenap), Rogério Cunha de Paula, explicou que já existe um plano de remoção em andamento.
“Existe um plano de remoção dela já em curso, que vai acontecer em breve. A gente vai soltar ela em uma área preservada ali perto, pode até ser que ela cruze a fronteira e vá viver na Bolívia. Ela vai ser monitorada com um rádio-colar, com um GPS que faz a transmissão via satélite. E esse monitoramento vai ser feito pelas instituições locais”, detalhou o pesquisador.

No momento, a equipe aguarda a chegada do material necessário para a captura e do colar de monitoramento. Após a remoção, o acompanhamento deve durar entre um ano e um ano e meio, período essencial para compreender os deslocamentos e os rumos do animal.
Moradores da região relatam que a onça-pintada é uma moradora antiga, mas passou a chamar a atenção devido a ataques a animais domésticos, como cachorros e galinhas. O último registro de ataque foi há um mês. O avanço das cidades sobre áreas que historicamente servem como habitats naturais para esses grandes felinos é apontado como o principal motivo para o aumento do contato entre humanos e a espécie.
A presença de galinhas e outros animais domésticos também acaba intensificando essa interação, pois as onças buscam esses animais como alimento, especialmente durante as épocas de cheia, quando saem em busca de locais para descanso.
Ações e desafios na conservação da onça-pintada
O aparecimento de onças-pintadas em áreas urbanas e os projetos desenvolvidos por instituições ambientais foram discutidos no painel “Estratégias e ações para a conservação de populações críticas de onça-pintada no Brasil e zonas transfronteiriças”, que integrou a programação da COP15, em Campo Grande.

Durante o evento, foi abordado o trabalho realizado no Parque Nacional do Iguaçu, que busca assegurar a preservação da espécie e uma convivência positiva com os seres humanos. O coordenador Rogério Cunha de Paula mencionou que, nos últimos 15 anos, outros animais foram removidos do local, e alguns morreram, deixando filhotes, evidenciando um histórico de desafios na área.
João Capobianco, presidente da COP15 e secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, enfatizou a necessidade de uma ação conjunta entre os países onde as onças-pintadas circulam, como Brasil, Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia. Ele destacou que, embora a espécie não realize longas migrações, ela percorre territórios amplos, podendo caminhar até 20 quilômetros por dia em busca de alimento.
“Não adianta o Brasil, por exemplo, adotar medidas de proteção dessa espécie se os vizinhos não adotam. Todos têm que atuar conjuntamente, e esse trabalho vai além da proteção e de garantir espaços ambientalmente adequados. A questão da educação e da preparação das pessoas para a convivência, porque esse é um animal muito imponente, muito grande, ele assusta as pessoas”, explicou Capobianco.
O trabalho apresentado pelo secretário-executivo sugere estratégias para orientar a coexistência entre pessoas e onças-pintadas, incluindo medidas para afastar os animais do contato humano e proteger criações e animais domésticos, a fim de evitar ataques e reduzir os conflitos.
A pesquisa reúne diversas experiências brasileiras, como estudos na Caatinga. No entanto, o pesquisador Rogério Cunha de Paula observou a ausência de ações coordenadas com países vizinhos na área específica do Pantanal onde se localiza Corumbá, um contraste com a região de Mato Grosso do Sul, que tem um trabalho conjunto efetivo entre órgãos ambientais, forças de segurança, pesquisadores e a comunidade.
