Eleição na Bolívia pode colocar mulheres no comando de três municípios da fronteira com Corumbá
A história política da fronteira boliviana com o Brasil está prestes a testemunhar um capítulo inédito e potencialmente revolucionário. No próximo domingo, 22 de março de 2026, ocorre a eleição na Bolívia e três mulheres, Silvia Aguilera, Silvia Quique e María René Hoyos, podem fazer história ao conquistar as alcaldías (prefeituras) de El Carmen, Puerto Quijarro e Puerto Suárez, respectivamente.
Este feito, se concretizado, conforme apontamento recente de pesquisas de intenção de votos realizadas nas três cidades, significaria que toda a Província de Germán Busch, um corredor estratégico na Bolívia que faz fronteira direta com o Pantanal sul-mato-grossense, passaria a ser governada simultaneamente por um trio feminino de lideranças.
Essa possibilidade não é apenas um marco local, mas um evento de grande relevância para a Bolívia e para o continente. Em um país que, apesar de ter avançado na representação parlamentar feminina, ainda vê poucas mulheres nos cargos executivos municipais, a eleição dessas três candidatas simultaneamente na mesma região de fronteira seria um forte sinal de mudança e um exemplo de superação de barreiras políticas e de gênero.
Quem é cada candidata
Silvia Quique, Puerto Quijarro
Silvia Quique construiu sua trajetória dentro do próprio comércio que define a cidade que quer governar. Começou como feirante, atravessou a fronteira incontáveis vezes, chegou a ir até a China em busca de oportunidades para o setor e, com o tempo, virou proprietária do Hotel Sílvia e de outros empreendimentos na região.
Suas propostas para a alcaldía incluem a conclusão e o equipamento do Hospital de Segundo Nível, a construção de um Mercado Municipal moderno, a implantação de uma Planta de Água Potável e de uma Planta de Resíduos Sólidos, a criação da Avenida Cultural Senda Pantanera, a reabertura da creche municipal, a garantia de um Centro de Educação Especial, câmeras de monitoramento em pontos estratégicos e a reativação da zona franca com modernização da terminal internacional.

“Comecei como feirante, aprendi o valor de cada negociação nessa fronteira e fui até a China buscar oportunidades para o nosso comércio. Essa caminhada me ensinou que Puerto Quijarro tem um potencial enorme, e que ele só se realiza com trabalho e com coragem. Quero trazer essa mesma determinação para a alcaldía: um hospital de verdade, água potável, ruas pavimentadas, zona franca ativa. Não estou aqui com promessas vazias. Estou aqui porque conheço essa cidade de perto, sei o que falta e sei como buscar”, disse Silvia Quique.
María René Hoyos, Puerto Suárez
Em Puerto Suárez, a maior cidade da Província Germán Busch, a candidatura feminina é a de María René Hoyos Medina. Cruceña de 27 anos, ela é empresária e proprietária da Family Farm, sediada na cidade. Antes de sua entrada na política, María René já possuía uma trajetória de envolvimento comunitário, tendo criado, em parceria com outros empresários, um fundo social de apoio à população e patrocinado iniciativas nas áreas esportiva, educacional e cultural em toda a província.

“Eu sempre acreditei que quem tem condições de gerar desenvolvimento tem também a responsabilidade de fazê-lo. Na Family Farm, nos fundos sociais, nos projetos que apoiamos tudo isso foi uma forma de servir à minha comunidade. A alcaldía é o próximo passo. Quero colocar a mesma energia, a mesma visão de quem trabalha e conhece a realidade da nossa gente, a serviço de Puerto Suárez.”
Silvia Aguilera, El Carmen
Nascida em El Carmen Rivero Torres em 22 de novembro de 1988, Silvia Aguilera é a candidata do município que a viu crescer. Advogada com mestrado em Administração da Justiça pela Universidade Gabriel René Moreno, ela também atua na pecuária, setor que, ao lado do direito, moldou sua leitura sobre a realidade do interior boliviano.
Sua candidatura tem ainda uma particularidade familiar. O pai, conhecido na região como Turco Aguilera, disputa no mesmo domingo uma cadeira na Assembleia Departamental de Santa Cruz, o que coloca pai e filha buscando cargos estratégicos na mesma eleição, na mesma região, no mesmo dia.

“Nasci aqui, cresci aqui e é aqui que quero deixar minha contribuição. Minha vocação sempre foi o serviço à comunidade. Tenho formação para defender direitos, tenho experiência para entender a realidade do produtor, da família rural. Quero unir essas duas coisas a favor de El Carmen”, disse Silvia Aguilera.
O número que explica a raridade
O que pode acontecer no domingo tem um peso maior quando se olham os dados históricos da Bolívia sobre representação feminina no executivo municipal. Nos 336 municípios bolivianos, as mulheres eleitas para as alcaldías não superaram 8% nas últimas três eleições subnacionais, segundo dados da Associação de Concejalas e Alcaldesas da Bolívia.
Esse número contrasta com a posição do país no parlamento. A nível municipal, a Bolívia tinha apenas 24 mulheres alcaldesas para 339 municípios num levantamento recente da ONU Mulheres. Isso numa nação que, ao mesmo tempo, é citada internacionalmente como exemplo de representação feminina no legislativo, com mais de 50% das cadeiras na câmara baixa ocupadas por mulheres, segundo a União Interparlamentar.
A Bolívia também não tem cota obrigatória para o cargo de prefeito. A equidade de género não se aplica à representação política das mulheres nos órgãos executivos do país; não existem medidas afirmativas que obriguem a que os cargos de alcaldes (prefeitos) e governadores sejam ocupados por mulheres em nenhuma proporção mínima. Candidatar-se à prefeitura, nesse sistema, já é uma ruptura com o padrão. Três candidaturas femininas na mesma província, na mesma eleição, é algo que os dados históricos não registram.
Se Silvia Aguilera, Silvia Quique e María René Hoyos vencerem no domingo, a Província de Germán Busch entrará para o registro político boliviano como uma configuração sem precedente. Do lado brasileiro da fronteira, Corumbá vai dormir domingo à noite aguardando saber quem vai governar, por cinco anos, a cidade que divide com ela a mesma ferrovia, o mesmo rio e o mesmo Pantanal.
A fronteira que está em jogo
Puerto Quijarro e Puerto Suárez não são cidades quaisquer para quem vive em Corumbá. A economia de Puerto Quijarro gira principalmente em torno da exportação de cereais pelo porto e do comércio com Corumbá, e o Canal Tamengo liga a cidade aos rios navegáveis Paraguai e Paraná.
Puerto Suárez é a capital da província e a maior cidade da região. Foi na década de 1950, com a chegada da Ferrovia Oriente, que a estação de Puerto Suárez passou a ser a única saída boliviana para o mar, tornando o eixo Corumbá-Puerto Suárez o principal caminho entre Brasil e Bolívia.

Hoje, a zona fronteiriça tem cerca de 179 mil habitantes, num espaço que também abriga o Pantanal, a maior área alagada do mundo, com 250 mil km², reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera. Esse peso geográfico e econômico é o pano de fundo da eleição de domingo.
O comércio que sustenta esses municípios alcança os dois lados da divisa. Brasil e Bolívia firmaram convênio para fixar Áreas de Controle Integrado em Corumbá, Puerto Quijarro e Puerto Suárez, com potencial de ampliar o comércio exterior da região em R$ 1,25 bilhão só no primeiro ano de operação. Quem governa Puerto Quijarro e Puerto Suárez decide, na prática, parte das condições em que esse fluxo acontece.
