Morre Madel Therezinha Luz pioneira das práticas integrativas no SUS
Socióloga e filósofa deixa legado de mais de dez livros e transformou a visão acadêmica sobre medicinas tradicionais e complementares
A socióloga e filósofa Madel Therezinha Luz faleceu no dia 2 de fevereiro. Ela deixa um marco na saúde pública nacional ao ser uma das principais responsáveis teóricas pela inclusão das Práticas Integrativas e Complementares da Saúde, conhecidas como Pics, no Sistema Único de Saúde.
Seus estudos permitiram que a medicina moderna ocidental deixasse de ser vista como a única via científica possível nas universidades. Madel introduziu o conceito de racionalidades médicas, o que legitimou sistemas complexos como a medicina tradicional chinesa, a homeopatia e a medicina ayurvédica como formas válidas de cuidado.
Roseni Pinheiro, ex-orientanda e colega de trabalho em diversas pesquisas, ressaltou a importância da professora para a área. “Não há nenhuma pessoa hoje do campo da saúde coletiva, ou até mesmo da sociologia da saúde, que tratou com tanta genialidade e inovação a ideia das instituições”.
O interesse acadêmico por temas não convencionais surgiu de uma experiência pessoal. A pesquisadora passou a investigar o que chamou de racionalidades médicas após sua filha, Mariana, enfrentar uma doença com diagnósticos difusos e obter sucesso no tratamento através da homeopatia.
Mariana descreve a mãe como uma mulher à frente de seu tempo, que se separou do marido em um período em que o divórcio não era previsto legalmente no Brasil. “Era uma mulher muito empoderada, ela não aceitava a ordem de ninguém”.
A trajetória de Madel começou em Belém, no Pará, onde nasceu em 1939, mas consolidou-se no Rio de Janeiro. A mãe, professora, incentivou a vida acadêmica em detrimento de uma possível carreira artística na música. Madel formou-se em filosofia na UFRJ em 1962, fez mestrado na Bélgica e atuou por décadas no Instituto de Medicina Social da Uerj.
Mesmo com mais de dez livros publicados e o reconhecimento como autora de obras fundamentais na sociologia da saúde, ela mantinha o foco no serviço ao próximo. Em entrevista concedida em 2024 à Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, a autora explicou o sentido de sua produção intelectual. “Tudo o que eu faço é pensando no outro. Qual outro? O outro que necessita de você, o outro que precisa de cuidado”.
Nos últimos anos de vida, a intelectual dedicou-se a escrever poesia, ficção e a analisar a perda de laços coletivos no pós-pandemia, além dos impactos das redes sociais na educação. Madel deixa dois filhos e quatro netos.

