Ataque à escola de meninas no Irã é evidência dos horrores da guerra

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Um ataque a uma escola de ensino infantil feminino em Minab, no sul do Irã, matou 168 crianças e deixou mais de 90 feridas durante a manhã, enquanto as alunas estavam em sala de aula. O episódio ocorreu no primeiro dia da ofensiva dos Estados Unidos e Israel contra o Irã iniciada no último sábado (28).

Milhares de pessoas, vestidas de preto, participaram do velório coletivo das vítimas na terça-feira (3). Imagens das valas abertas para receber os caixões alinhados circularam internacionalmente e reforçaram a repercussão do ataque.

O alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu uma investigação “rápida, imparcial e minuciosa” sobre as circunstâncias do ocorrido.

Estados Unidos e Israel ainda não reconheceram autoria do ataque. A Casa Branca informou que investiga o caso. Já Israel afirmou que não encontrou “nenhuma ligação” entre o ataque e as suas operações militares.

O jornal norte-americano New York Times, após analisar imagens de satélite, publicações nas redes sociais e vídeos verificados, avaliou que “As declarações oficiais de que as forças americanas estavam atacando alvos navais perto do Estreito de Ormuz, onde está localizada a base da Guarda Revolucionária Islâmica, sugerem que eles provavelmente foram as responsáveis ​​pelo ataque”.

O major-general português Agostinho Costa ponderou que o bombardeio pode ter resultado de erro de alvo, lembrando que ataques com mísseis Tomahawk apresentam margem de erro e que falhas de orientação são registradas em cenários de conflito.

Contexto político e impacto sobre mulheres e meninas

Especialistas e ativistas apontam que o episódio desnuda a dimensão humana da ofensiva e suas consequências sobre mulheres e meninas em países afetados pelo confronto. A socióloga Berenice Bento, professora da Universidade de Brasília que estuda relações de gênero no mundo muçulmano, relaciona o ataque a práticas militares que visam destruição em larga escala. “Com o ataque à escola, eles estão querendo dizer não vão deixar pedra sob pedra. É destruir tudo. Para que a própria população civil, diante daquela destruição, se coloque contra o poder local. Eles destruíram Gaza inteira para fazer com que a população de Gaza se posicione contra o Hamas”.

A jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh, doutora em Estudos Árabes pela Universidade de São Paulo, ressalta que a mobilização das mulheres iranianas não pede intervenção externa. “Mulheres iranianas organizaram um grande movimento, em 2022, o Mulher, Vida e Liberdade e seguem em luta há décadas. O povo iraniano, os povos árabes, o povo palestino devem decidir seu destino, não os EUA e Israel”.

O movimento Mulher, Vida e Liberdade surgiu em 2022 após a morte da estudante Mahsa Amini, detida em um protesto e espancada pela Patrulha de Orientação. A trajetória de militância das mulheres iranianas inclui prisões e condenações. A advogada e ativista Narges Mohammadi foi laureada com o Nobel da Paz de 2023 “pela sua luta contra a opressão das mulheres” e atualmente cumpre pena de 7 anos e meio de reclusão por “conspiração”, segundo seu advogado.

Pesquisadoras chamam a atenção para contradições no olhar ocidental sobre as mulheres muçulmanas e sobre os efeitos das intervenções externas. A pesquisadora do Núcleo de Pesquisa sobre as Relações do Mundo Árabe da UFRGS, Natália Ochôa, questiona a narrativa de salvação externa e aponta o ataque a uma escola como indício da violência dirigida contra espaços de educação feminina. “Mulheres muçulmanas vistas e retratadas como oprimidas e sem capacidade de agência precisariam da salvação de mulheres ocidentais, sendo estas últimas o grande exemplo de liberdade a ser seguido. Ora, se um desses pilares é a educação, por que então logo uma escola de meninas, onde elas são alfabetizadas e aprendem sobre seus direitos, é um dos primeiros espaços a se tornarem alvos desses ataques? Se elas precisam de salvação, por que a última coisa que tem sido feita é salvá‑las?”

Ao mesmo tempo, dados de organismos internacionais registram avanços sociais no Irã nas últimas décadas. Conforme indicadores do Banco Mundial e da Unesco, a alfabetização feminina cresceu de cerca de 30% nos anos 1970 para aproximadamente 85% nos anos 2000. A participação das mulheres nas universidades subiu de 33% para cerca de 60% no mesmo período, enquanto a presença feminina no mercado de trabalho permanece baixa, em torno de 15% a 20% dos ocupados.

Direitos e liberdades das mulheres seguem restringidos pela legislação e por práticas institucionais. Entre as limitações citadas estão o uso obrigatório do véu hijab, impedimentos para viajar e mobilidade que, em muitos casos, dependem de autorização de pais ou maridos, e punições aplicadas pela chamada Patrulha de Orientação, também conhecida como polícia da moralidade.

Organizações internacionais e governos pedem apuração e responsabilização, enquanto famílias e comunidades lidam com o luto e com a repercussão global das imagens do velório coletivo. Investigações oficiais prosseguem em meio a análises independentes que apontam possibilidades distintas para a origem do ataque e para sua intencionalidade.

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