Vorcaro é preso preventivamente por manter esquema de vigilância e intimidação
Na manhã de quarta-feira o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou a prisão preventiva do banqueiro Daniel Vorcaro após pedido da Polícia Federal no que ficou conhecido como a terceira fase da Operação Compliance Zero.
A decisão autoriza também a prisão de outras três pessoas envolvidas e foi a primeira tomada por Mendonça no processo depois que ele assumiu a relatoria em substituição a Dias Toffoli.
Toffoli já havia decretado a prisão de Vorcaro em novembro e pouco depois substituiu a medida pelo uso de tornozeleira eletrônica.
Organização e funcionários
As investigações descritas nos autos apontam que o grupo liderado por Vorcaro mantinha uma estrutura destinada à vigilância e à intimidação de pessoas consideradas contrárias aos interesses financeiros do banqueiro.
Em relatórios da Polícia Federal consta a definição de uma unidade interna chamada A Turma que era, conforme os documentos, “estrutura utilizada para realizar atividades de monitoramento e coleta de informações de interesse do grupo investigado, bem como pela prática de atos de coação e intimidação de pessoas” entre concorrentes empresariais, ex-empregados e jornalistas.
Dois servidores que ocupavam posições estratégicas no Banco Central mantinham interlocução próxima com Vorcaro e foram descritos como “uma espécie de empregado/consultor” que repassava informações privilegiadas, segundo as investigações.
Os nomes apontados nos autos são o ex-diretor de fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza e o ex-servidor Belline Santana.
Execução e ameaças
O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, foi alvo de prisão preventiva por operar como espécie de contador informal do grupo e responsabilizar-se por pagamentos e cobranças, incluindo repasses a A Turma.
Mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram coordenação direta com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado como Felipe Mourão e apelidado Sicário, e trazem a ordem “moer essa vagabunda” referida a uma empregada que, segundo os autos, estaria lhe fazendo ameaça.
Mourão teve prisão decretada e é descrito pelo ministro como “responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e neutralização de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo investigado”.
Relatórios indicam que o Sicário recebia pagamentos mensais de R$ 1 milhão.
As mensagens exibem também planejamentos contra um jornalista, identificado publicamente como Lauro Jardim, com a instrução “Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele” feita por Vorcaro.
A troca registra ainda “Quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto” atribuída a Vorcaro em referência ao mesmo profissional, seguida por “Vou fazer isto.” e pela confirmação “Sim.” em resposta do comparsa.
Integração do grupo incluía o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva que, segundo a investigação, atuava na obtenção de dados sensíveis e na vigilância de alvos por meio de contatos e experiência na carreira policial.
De acordo com a Polícia Federal são objeto de apuração crimes contra o sistema financeiro nacional, corrupção ativa e passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro, violação de sigilo funcional, fraude processual e obstrução de justiça.
O processo foi remetido ao Supremo em novembro após indícios de possível envolvimento de autoridades com foro privilegiado, embora até o momento não constem entre os investigados pessoas com foro no STF.
O Fundo Garantidor de Crédito estima que os ressarcimentos a clientes prejudicados pela operação do Banco Master devem ultrapassar R$ 50 bilhões, apontando para o que as investigações consideram possivelmente a maior fraude financeira já praticada no país.
A Procuradoria Geral da República manifestou-se contrariamente às medidas solicitadas pela Polícia Federal em 27 de fevereiro e qualificou como impossível o prazo de resposta de 72 horas estabelecido por Mendonça, avaliando não haver “a indicação de perigo iminente, imediato, que induza à extraordinária necessidade de tão rápida e necessariamente sucinta análise do pleito”.
Mendonça reagiu lamentando a posição da PGR e ressaltou risco de interferência nas apurações ao apontar indícios de que o grupo teve acesso a sistemas sigilosos do próprio Ministério Público e da Polícia Federal, indicando “risco concreto de interferência” nas investigações.
O ministro concluiu nos autos que “A liberdade dos investigados compromete, assim, de modo direto, a efetividade da investigação e a confiança social na Justiça penal. Permitir que permaneçam em liberdade significa manter em funcionamento uma organização criminosa que já produziu danos bilionários à sociedade”.
A reportagem registrou tentativa de contato com as defesas dos investigados conforme os registros públicos e aguarda manifestações.

