Irã é apontado disposto a levar guerra ao limite após míssil atingir Turquia

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Na quarta-feira, baterias antiaéreas da Otan interceptaram um míssil procedente do Irã que havia cruzado os espaços aéreos do Iraque e da Síria antes de chegar à Turquia, segundo comunicado do governo turco, sem registro de vítimas ou feridos.

O Ministério da Defesa da Turquia informou sobre a interceptação e destacou sua posição sobre possíveis retaliações. “Lembramos que nos reservamos o direito de responder a qualquer atitude hostil contra o nosso país. Instamos todas as partes a se absterem de ações que possam agravar ainda mais o conflito na região.”

O documento do governo acrescentou que “continuaremos a consultar a Otan e nossos demais aliados” diante do episódio, que eleva a tensão por envolver um país membro da aliança e, na avaliação de especialistas, pode ampliar o alcance do confronto.

Risco de ampliação e respostas políticas

O caso ainda não teve comentário oficial do Irã, enquanto a Turquia, que criticou as ações militares de Israel e dos Estados Unidos contra Teerã, classificou o incidente em termos diplomáticos e legais.

O presidente Tayyip Erdogan avaliou o ocorrido em termos de violação internacional e relações bilaterais. “uma clara violação da soberania do Irã, mas também visa a paz e o bem-estar do povo amigo e irmão do Irã”

Especialistas ouvidos destacam que a entrada direta da Turquia no conflito poderia arrastar outros aliados e adversários para um conflito mais amplo, dada sua condição de Estado-membro da Otan.

Estratégia iraniana e capacidades de prolongamento

Para o professor de relações internacionais Danny Zahreddine, da PUC de Minas, a ação iraniana integra uma estratégia de pressão destinada a demonstrar disposição para elevar os riscos do confronto.

“É a estratégia de ‘bailar à beira de um abismo pedregoso'”

Zahreddine argumenta que ataques recentes a bases dos Estados Unidos em 12 países do Golfo e o lançamento do míssil sobre a Turquia fazem parte de um padrão que sinaliza que o governo iraniano está disposto a aceitar custos elevados. “Isso mostra o tamanho do custo que o Irã está disposto a assumir. E quando você convence o seu oponente que está disposto a morrer junto com você, isso aumenta muito o custo da ação”

O analista militar Robinson Farinazzo, oficial da reserva da Marinha do Brasil, também relaciona o episódio a um jogo de alta pressão, avaliando que, caso o Irã resista e a guerra se estenda, a dinâmica pode mudar em favor de Teerã pelo desgaste enfrentado por potências externas. “Se o Irã resistir e essa guerra se prolongar mesmo, prolongar indefinidamente, isso vai ser o maior problema da história deles, desde a guerra do Vietnã. Aí vira um vietnã mesmo. você vai ter muito questionamento na sociedade americana”

Relatos da imprensa dos Estados Unidos indicam que a CIA estaria tentando armar grupos separatistas curdos no Irã como alternativa para desestabilizar Teerã, uma possibilidade que levanta incertezas sobre a reação da Turquia e sobre a coesão da comunidade curda.

Robinson Farinazzo assinala o potencial de atrito entre aliados em razão dessa hipótese. “O Curdiquistão independente não é uma coisa que os turcos querem. Com isso, temos uma incógnita bastante grande. Se começarem a apoiar os curdos contra o Irã, será que a Turquia vai gostar disso? A grande incógnita é como a Turquia vai agir nessa situação porque agora os interesses dela estão em risco”

Danny Zahreddine acrescenta que o apoio a grupos curdos é um projeto de risco para essas forças, que não estão unificadas. “Há uma parte disposta a tentar se colocar contra o governo e outra que não está disposta. Esse é um projeto muito perigoso para os curdos. A história já revelou que toda vez que os curdos são armados para se colocar contra um governo em favor dos EUA, em determinado momento eles são abandonados”

Além das dimensões políticas, Zahreddine chama atenção para a capacidade industrial iraniana em sustentar um conflito mais longo, citando produção de drones e mísseis como elementos que ampliam a resistência de Teerã. “Hoje eles produzem por volta de 150 drones por dia. Imagina os milhares de drones que são produzidos nesses nove meses para cá. Tem a produção também dos mísseis balísticos. Eles têm um arsenal para uma guerra longa. Agora, a questão é o quanto eles resistem aos intensos ataques dos EUA e Israel”

O episódio amplia o quadro de incertezas regionais ao envolver interseções entre operações militares, alianças internacionais e possíveis apoios a forças separatistas, mantendo a tensão alta e obrigando países a reavaliarem posturas e consultas diplomáticas com aliados.

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