Crise em Cuba é sentida em Havana com apagões, alta de preços e cortes de serviços

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Moradores de Havana descrevem o atual momento como o mais severo enfrentado pela ilha nas últimas décadas, com aumento imprevisível dos apagões e elevação rápida dos preços de itens básicos após medidas anunciadas pelo governo dos Estados Unidos no fim de janeiro.

Ivón B. Rivas Martinez, arquiteta de 40 anos e mãe solo de um filho de 9 anos, relata à Agência Brasil

“Antes, havia cerca de quatro horas sem energia por dia na capital, depois aumentou para cinco horas. Com o agravamento da crise, esse tipo de planejamento não é mais possível. Ninguém sabe quantas horas podem ser. Hoje houve 12 horas de apagão”

Os cortes prolongados afetam serviços essenciais na capital, com paralisação de bombas de água, caixas eletrônicos inoperantes e cartórios sem capacidade de atendimento, o que amplia a dificuldade do dia a dia, sobretudo para procedimentos administrativos e acesso a recursos financeiros.

Com a redução da oferta de combustíveis, o custo de deslocamento aumentou e o transporte público teve linhas reduzidas. Ivón descreve o quadro operacional dos ônibus urbanos

“O transporte público já sofria com falta de peças de reposição, agora, devido à escassez de combustível, está ainda mais reduzido. As linhas regulares da cidade oferecem apenas uma viagem pela manhã e outra à tarde. E algumas linhas nem sequer garantiam isso”

A capital convive também com o incremento dos preços de itens da cesta básica, tendência que moradores atribuem a uma combinação entre escassez de combustíveis, menor oferta de produtos e dificuldades na logística interna.

Ivón aponta a variação recente nos valores dos alimentos

“Nessas últimas semanas, a diferença é que os preços aumentaram em um ritmo muito mais acelerado do que antes. Arroz, o óleo, a carne de frango, que são alimentos básicos para os cubanos, ficaram muito mais caros”

O problema energético é mais agudo fora de Havana, onde residentes chegam a ficar sem eletricidade por grande parte do dia. Ivón recorda a rotina de parentes do interior como exemplo da limitação imposta pelos cortes.

“Minha tia do interior precisava sair cedo todos os dias para comprar o que ia consumir, porque, se comprasse mais do que isso, estragaria. No interior do país, quase o dia inteiro ficava sem eletricidade”

Para o economista aposentado Feliz Jorge Thompson Brown, de 71 anos, a atual conjuntura supera em gravidade episódios anteriores e representa um desafio econômico e social amplo, que atinge tanto a oferta de serviços quanto o bem-estar psicológico da população.

Feliz Jorge avalia o momento vivido em comparação com crises passadas

“Este é o momento mais difícil que o país já enfrentou. A situação energética é muito grave. É [o momento] mais cruel e severo do que durante o período especial, tanto material, quanto espiritualmente mais desafiador”

Feliz Jorge também lembra os ganhos sociais herdados da Revolução e como sua família, de origem jamaicana, beneficiou-se históricamente do sistema de saúde e educação públicos.

“Tive a sorte de me beneficiar de todas as conquistas dos primeiros anos da Revolução e posteriores. Todos em nossa família nos demos bem, a maioria de profissionais com bons trabalhos: professores, engenheiros, médicos e assim por diante”

A crise tem repercussões diretas na área de saúde, com consultas canceladas e priorização do atendimento emergencial em razão das limitações de transporte e da falta de medicamentos. Ivón sintetiza parte desses efeitos na vida cotidiana.

“Como resultado, muitas consultas foram canceladas e o atendimento de emergência passou a ser priorizado”

E sobre o abastecimento de remédios e alternativas adotadas pelos pacientes, Feliz Jorge descreve o comportamento de busca por tratamentos fora do sistema regular.

“Apesar disso, as pessoas continuam indo aos hospitais para consultas, para ver o médico e procuram dar um jeito de conseguir o medicamento, seja no mercado paralelo ou por meio de familiares que trazem para elas”

Os efeitos combinados da pandemia, do cerco econômico mantido por administrações anteriores e do novo endurecimento das restrições energéticas pelo governo dos EUA contribuíram para a deterioração do quadro, segundo relatos locais. A medida norte-americana incluiu advertências sobre países que vendessem petróleo à ilha e classificações que agravaram as limitações de acesso a combustíveis no mercado global.

Apesar das dificuldades, parte da estrutura educacional e cultural segue funcionando, com crianças frequentando escolas próximas de casa e atividades gratuitas mantidas em centros culturais, o que proporciona rotinas e opções de convívio social para famílias como a de Ivón.

Ivón destaca a manutenção de opções gratuitas para crianças

“É uma boa opção porque não custa nada, é gratuito e do Estado. Existem muitos lugares com centros culturais que continuam funcionando e oferecem essa oportunidade”

Sobre a finalidade das medidas externas e a reação popular, Ivón expressa ceticismo quanto ao objetivo declarado pelos Estados Unidos e aponta o foco cotidiano dos cubanos.

“O cubano acorda e só pensa em garantir comida para sua família. Os jovens que estão insatisfeitos têm outras aspirações. O que eles querem é emigrar. Não vejo nenhuma campanha ou ninguém nas ruas protestando”

Feliz Jorge conclui destacando a avaliação crítica da política de bloqueio e a convicção de que a ilha continuará buscando alternativas, sem, no entanto, minimizar o impacto humano das sanções.

“Está comprovado que o bloqueio e a política de bloqueio contra Cuba são verdadeiramente desumanos e cruéis e que restringem e maltratam o povo cubano. Cuba não está sozinha e continuará avançando”

Contexto internacional e próximos passos

As medidas anunciadas pelo governo dos EUA no fim de janeiro foram justificadas em parte pelo alinhamento político de Havana com potências como Rússia, China e Irã. Autoridades e moradores relatam que o aperto das restrições energéticas limitou a possibilidade de compra de petróleo no mercado global e foi seguido por queda adicional na disponibilidade de combustíveis, acentuando a crise em setores vitais.

Impacto regional

Especialistas e moradores apontam que, em províncias do interior, onde a infraestrutura já era mais frágil, os cortes podem se prolongar por quase todo o dia e agravam a logística de compras, a conservação de alimentos e o acesso a serviços básicos, ampliando a pressão sobre famílias e comunidades.

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