Embaixador de Cuba diz que medidas de Trump sobre petróleo são genocídio

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O embaixador de Cuba no Brasil, Adolfo Curbelo Castellanos, afirmou que a recente autoridade americana que atinge o fornecimento de petróleo à ilha tem impacto direto sobre a sobrevivência da população cubana e qualificou a medida como genocida.

Adolfo Curbelo, embaixador de Cuba no Brasil, evocou a dependência energética da ilha ao justificar a avaliação sobre o efeito das sanções e a violação de soberania mundial

“Sem energia, tudo fica comprometido. O que eles fizeram foi condenar o povo cubano ao extermínio. Um país como Cuba, que precisa de petróleo para gerar eletricidade, simplesmente não pode importá-lo no exercício de seu direito soberano. A soberania do resto do mundo também foi violada pelos EUA, não apenas a de Cuba”

Curbelo recebeu a Agência Brasil na embaixada em Brasília para detalhar as consequências da ordem executiva editada pelo governo do presidente dos Estados Unidos em 29 de janeiro e disse que a decisão prevê tarifas sobre produtos de qualquer país que comercialize petróleo com Havana.

Adolfo Curbelo explicou o contexto histórico e as medidas acumuladas contra a ilha

“Há um acúmulo de fatores. Viemos de um bloqueio de 67 anos, reforçado durante o primeiro mandato de Trump, com mais 243 medidas adicionais que permaneceram em vigor durante toda a presidência de Biden.”

Em matéria publicada antes da entrevista, o bloqueio foi contextualizado como iniciado logo após a Revolução de 1959 e descrito como em vigor há 66 anos, informação que integra o histórico do embargo.

Impacto na logística e nas importações

Curbelo descreveu métodos usados para dificultar a chegada de combustíveis e o alcance das sanções sobre empresas que sustentam o transporte marítimo

“Nós vivemos sob um bloqueio rigoroso que incluiu, por muitos anos, medidas de guerra não convencional para atingir, por exemplo, navios que transportavam petróleo para Cuba, ou companhias de seguros para navios. Muitas embarcações foram abordadas para impedir que o petróleo chegasse a Cuba.”

O embaixador afirmou ainda que, com a nova ordem executiva, os EUA formalizaram a ameaça a terceiros que comercializem combustível com Cuba e que isso agravou uma crise energética que, segundo a Agência Internacional de Energia, até 2023 dependia de derivados de petróleo para cerca de 80% da eletricidade consumida.

Curbelo qualificou as medidas dos EUA de forma direta

“Eles já haviam garantido que nenhum petróleo da Venezuela chegaria a Cuba. Toda essa medida busca, precisamente, subjugar Cuba. Dizemos que é uma medida que constitui genocídio declarado.”

Medidas internas e busca por alternativas

Ao explicar como o país tenta mitigar o efeito das restrições, o embaixador detalhou ações de austeridade e investimentos na matriz elétrica

“A situação é muito tensa. O país teve que tomar medidas de austeridade extremas para priorizar a proteção do que é mais necessário. Em primeiro lugar, a população. Embora haja longos apagões em todo o país, foram adotadas medidas de organização do trabalho para que as pessoas trabalhem de casa, priorizando aqueles que mais precisam sair para trabalhar.”

Sobre o aumento da capacidade renovável, Curbelo apresentou números de expansão da energia solar no país

“Estamos trabalhando para aumentar a extração e o refino de petróleo no país. Temos trabalhado para aumentar a instalação de painéis solares no país para gerar eletricidade a partir de energia fotovoltaica. No ano passado, conseguimos instalar painéis solares para gerar 1.000 megawatts. Essa instalação nos permitiu ter agora quase 40% da geração de eletricidade diurna do país proveniente de painéis solares.”

O embaixador, no entanto, chamou atenção para limitações tecnológicas e déficit energético

“Isso não quer dizer que estamos bem, pois ainda há um déficit muito agudo na geração de eletricidade, que está ligado à falta de combustível. Ainda não temos a capacidade de armazenamento necessária para distribuir essa eletricidade. A maior parte da infraestrutura de geração instalada no país consiste em usinas termelétricas e a maioria delas possui tecnologia obsoleta que não podemos modernizar porque é muito caro.”

Curbelo também relacionou o bloqueio à redução das receitas turísticas e à interrupção de voos por falta de combustível

“O turismo é uma das principais atividades do país para obtenção de divisas. Com as divisas obtidas, importa-se inclusive petróleo. Quando não tem petróleo, não tem combustível para abastecer os aviões que transportam turistas.”

O embaixador voltou a vincular a intenção das sanções ao objetivo de privar a população de meios de subsistência

“É por isso que falei de genocídio, porque o objetivo dessa medida é justamente privar o povo cubano de seus meios de subsistência. O bloqueio é parte de uma política de genocídio.”

Reações internacionais foram citadas como expressões de rejeição à política anunciada pelos EUA

“Há uma rejeição generalizada da política dos EUA no mundo. Ninguém aceita as tarifas, ninguém aceita a agressão, ninguém aceita nada disso, a política de chantagem.”

Curbelo listou doações e gestos de apoio recebidos por Cuba e defendeu a ajuda prática

“José Martí, o apóstolo da independência cubana, disse que fazer é a melhor maneira de falar. Todos nós podemos desempenhar um papel. Não devemos nos limitar a contar uma história, mas devemos agir para mudar essa história para derrotar a política dos EUA.”

O embaixador citou também posições de países e blocos que, segundo ele, expressaram solidariedade e críticas à ordem executiva, como China, Rússia, o Movimento Não Alinhado e o México, que teria enviado navios com ajuda humanitária.

Por fim, Curbelo reafirmou os limites que Havana estabelece para qualquer interlocução com Washington

“A decisão de Cuba de defender sua soberania e independência, mesmo com o uso de armas se necessário, é inabalável. Somos uma nação pacífica. Sempre declaramos nossa disposição em manter uma relação respeitosa com os EUA, inclusive com o atual governo americano, e nossa disposição em dialogar em pé de igualdade.”

Em 5 de fevereiro, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel também denunciou a medida do governo americano como nova tentativa de derrotar a Revolução cubana, conforme relatado pela Agência Brasil.

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