Chikungunya é apontada como risco crescente na Europa com a elevação das temperaturas
Um estudo publicado no Journal of Royal Society Interface e divulgado pelo jornal britânico Guardian nesta quarta-feira (18) aponta que o aquecimento global deve aumentar o número de infecções pelo vírus Chikungunya nos próximos anos e estender a área de risco a dezenas de países, incluindo grande parte da Europa.
A pesquisa identifica a região sul do continente como a mais vulnerável e classifica Albânia, Grécia, Itália, Malta, Espanha e Portugal entre os seis países sob maior risco de epidemias associadas ao Chikungunya, cenário influenciado pela presença dos mosquitos Aedes que prosperam em ambientes mais quentes.
Os cientistas basearam as conclusões em uma análise do efeito da temperatura sobre o tempo de incubação do vírus no Aedes albopictus, chegando à conclusão de que a temperatura mínima permissiva à infecção é da ordem de 2,5 graus Celsius e que a faixa máxima favorável à transmissão situa-se entre 13 graus e 14 graus Celsius.
Esses limites são consideravelmente inferiores aos valores considerados até agora, já que estudos anteriores estimavam que a transmissão ocorreria apenas a partir de mínimas entre 16 graus e 18 graus, implicando que áreas e estações de risco poderão se ampliar e se prolongar.
Sandeep Tegar, do Centro Britânico de Ecologia e Hidrologia, destacou o caráter iminente da mudança no padrão de dispersão do vírus. “é apenas uma questão de tempo”
O pesquisador também chamou atenção para a velocidade do aquecimento na Europa, afirmando que o ritmo local registra aumento superior à média mundial. “é aproximadamente o dobro”
Na avaliação de Tegar, a determinação precisa do limite térmico inferior tem papel central nas projeções de risco. “o limite inferior de temperatura para a propagação do vírus é muito importante”
Clinicamente, a infecção provoca dores articulares intensas e debilitantes que podem persistir por anos e apresenta maior gravidade em crianças e idosos, com potencial letalidade nessas faixas etárias.
De acordo com a Dra. Diana Rojas Alvarez, que lidera a equipe da Organização Mundial da Saúde sobre vírus transmitidos por picadas de insetos e carrapatos, a doença pode ter consequências duradouras, com até 40% das pessoas afetadas sofrendo de artrite ou dores agudas até cinco anos após a contaminação.
Embora a transmissão não ocorra diretamente entre pessoas, registros clínicos e revisões médicas apontam eventos isolados que aproximam o risco de contaminação por outras vias, conforme documento do Hospital da Luz assinado pelo médico Saraiva da Cunha. “transmissão de mãe para filho na gravidez e no perinatal e na sequência de transfusões de sangue contaminado”
A experiência recente na Europa confirma a mudança no padrão epidemiológico: França e Itália registraram, no ano passado, centenas de casos após longos períodos de poucas ocorrências no continente, situação que evidencia a capacidade de surtos locais diante de condições climáticas favoráveis.
Aquecimento mais intenso no sul europeu tem permitido a atividade dos mosquitos Aedes ao longo de todo o ano, reduzindo a barreira representada por invernos frios, e os autores do estudo alertam que tendem a ocorrer surtos mais frequentes e intensos nos próximos anos.
Em relação às medidas de prevenção, a líder da equipe da OMS enfatiza a necessidade de controle vetorial e de ações comunitárias para reduzir criadouros e proteger pessoas contra picadas. “controlar estes mosquitos para que não se espalhem ainda mais”
Além da educação da população sobre eliminação de água parada, a orientação inclui uso de roupas compridas e de cores claras e aplicação de repelentes, bem como a criação de sistemas de vigilância por parte das autoridades de saúde para monitorar e responder a surtos.
Os autores do estudo afirmam que os resultados oferecem ferramentas para que gestores locais determinem quando e onde intensificar ações de prevenção e vigilância, auxiliando na priorização de intervenções diante do avanço projetado da doença.

