Anatel inicia remoção definitiva de orelhões das ruas
Remoção começou neste mês e deve tirar de circulação os telefones públicos até 2028, após a queda no uso com a popularização do celular
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) começou, neste mês, a retirada definitiva dos orelhões das ruas em todo o país. A previsão é que os aparelhos deixem de existir até 2028, em um processo que ganhou força após a perda de espaço dos telefones públicos com a popularização do celular.
A redução aparece nos números do próprio serviço. No período de maior uso da telefonia pública no Brasil, o país chegou a ter 1,5 milhão de orelhões instalados em vias e praças, enquanto hoje restam cerca de 30 mil, sendo quase 5 mil na cidade de São Paulo.
A remoção passou a ocorrer de forma oficial em janeiro de 2026, depois do encerramento da concessão ligada à operação dos aparelhos no Brasil. Mesmo com a mudança, alguns exemplares ainda permanecem em locais públicos e chamam atenção mais como peça urbana do que como alternativa de comunicação.
Na praça Benedito Calixto, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, uma dupla de orelhões segue no mesmo ponto, em frente a uma pastelaria. Shirley, de 58 anos, relata que o equipamento quase não tem uso no cotidiano. “Só os moradores de rua que ficam brincando, conversando sozinho com eles. Mas o pessoal não usa, ninguém usa”.
Ela também afirma que não utiliza um orelhão há cerca de duas décadas. “Já usei muito, mas agora, coitado, está abandonado”.
O esvaziamento do serviço contrasta com o papel que os telefones públicos já tiveram na rotina de bairros e famílias. O motorista de aplicativo Eronildo Almeida, de 46 anos, lembra que, em Guarulhos, na região metropolitana, o orelhão funcionava como ponto de encontro e meio central para contato com parentes distantes.
“Eu vim da cidadezinha da Bahia, chamada Conceição do Coité, com 18 anos de idade. E, para me comunicar [com os parentes distantes], o meu acesso mesmo era o orelhão. A gente pegava aquelas filas, às vezes chegava no orelhão, não estava funcionando, corria para o outro e, assim, a gente conseguia fazer aquela ligação. Era muito rápido, porque tinha muita gente para ligar também para os outros parentes. Então a gente fazia aquela ligação de 10, 15 minutos no máximo. Às vezes, até menos. Era a única forma de a gente poder se comunicar com nossos parentes lá no interior“.
Entre pessoas mais novas, a lembrança tende a ser menos presente, já que a lembrança coincide com a fase em que o celular já fazia parte do dia a dia. Lucas, também motorista de aplicativo, afirma que chegou a usar o equipamento, mas não guarda detalhes. “Eu já usei [orelhão], mas eu não lembro como é mais, porque eu era muito criança. Na minha rua, inclusive, tinha até uns tempos atrás um orelhão na frente do bar, mas acho que já foi retirado”.
O orelhão, além de símbolo urbano, tem características brasileiras que ajudam a explicar sua presença na memória coletiva. O nome e o desenho são uma adaptação local, e o formato que lembra uma parte do corpo humano foi lançado em 1972, com projeto da arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira.
O uso também passou por fases e mecanismos que marcaram época. No início, era preciso uma ficha telefônica para completar as chamadas, e a queda da ficha ao fim da ligação ajudou a popularizar a expressão “caiu a ficha”, usada até hoje em situações de surpresa no dia a dia.
Mesmo em desuso, o objeto voltou a circular no imaginário recente em 2026, quando apareceu no pôster do filme O Agente Secreto, indicado quatro vezes ao Oscar e estrelado por Wagner Moura. A imagem destacou um orelhão amarelo, ajudando a recolocar o telefone público em evidência no debate cultural enquanto a retirada avança nas ruas.

