Sanções dos EUA são determinantes para colapso econômico na Venezuela
Medidas militares recentes dos Estados Unidos ocorreram em meio a um isolamento econômico de larga duração que especialistas e relatórios internacionais associam ao agravamento do quadro econômico venezuelano, conforme levantamento da Reuters divulgado em reportagem citada pela Agência Brasil.
O cerco econômico teve impactos concretos na cadeia produtiva e financeira do país, incluindo a interrupção do financiamento da indústria do petróleo, restrições ao refinanciamento da dívida, dificuldade em efetuar transações no mercado internacional e o congelamento de ativos da Venezuela no exterior.
A economista e socióloga Juliane Furno, professora adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, aponta finalidade política às medidas. “asfixiar experiências políticas que fogem ao controle dos países imperialistas”
Bloqueios de ativos foram adotados também por Portugal e Reino Unido, e o Banco de Inglaterra reteve 31 toneladas de ouro avaliadas em US$ 1,2 bilhão, segundo documentos e informes citados nas apurações. Em paralelo, Washington passou a levantar suspeitas sobre qualquer transação vinculada à Venezuela, o que fechou canais financeiros com instituições de outras nações.
A proibição do pagamento de dividendos ao governo venezuelano pela Citgo, principal filial da estatal PDVSA no exterior, culminou com a liquidação da empresa pela justiça dos Estados Unidos no final de 2025 para servir de ativo a credores internacionais da Venezuela, medida qualificada por Caracas como “roubo”
As sanções sofreram ampliações em diferentes momentos. A primeira legislação que permitiu o bloqueio atual foi aprovada em dezembro de 2014, e em março de 2015 o governo dos EUA emitiu a Ordem Executiva 1.692 que declarou emergência nacional e autorizou novas medidas de pressão.
As restrições de 2017 foram ampliadas em agosto daquele ano com medidas que restringiram o acesso ao mercado financeiro norte-americano, e entre 2018 e 2020 houve sanções direcionadas ao comércio de ouro, mineração, petróleo e diesel, além de penalidades aplicadas a empresas estrangeiras por negociarem com a Venezuela, conhecidas como sanções secundárias.
O economista venezuelano Francisco Rodríguez, professor da Universidade de Denver, reconhece responsabilidades de gestões internas anteriores, e ressalta que atribuir a emigração apenas ao regime de Maduro ignora fatores econômicos críticos. “Dizer que os venezuelanos estão fugindo unicamente por causa do regime de Maduro não passa de uma mera retórica que ignora a questão fundamental: o impacto das sanções nas condições de vida”
Em estudos que analisam a trajetória macroeconômica do país, Rodríguez afirma ter identificado o papel das restrições externas no colapso. “decisivamente que as sanções têm sido um dos principais fatores que contribuíram para o colapso econômico da Venezuela”
Ao projetar cenários futuros relacionados ao endurecimento das medidas, o economista estimou as consequências migratórias. “A reimposição de sanções de pressão máxima levaria a uma emigração estimada em 1 milhão de venezuelanos adicionais nos próximos cinco anos, em comparação com um cenário base sem sanções econômicas”
Os números macroeconômicos destacam a dimensão da crise. Entre 2013 e 2022 a recessão consumiu cerca de 75% do PIB, e mais de 7,5 milhões de pessoas emigraram, o que corresponde a cerca de 20% da população, conforme dados compilados em relatórios sobre o país.
Do lado estrutural, a queda dos preços do petróleo em 2014, com redução próxima a 70% do valor do barril, expôs a vulnerabilidade de uma economia cuja receita de exportação depende em mais de 95% do petróleo. A retração do setor petrolífero aumentou de 11,5% em 2017 para 30,1% em 2018, gerando perda de US$ 8,4 bilhões em divisas essenciais para a manutenção de importações, conforme pesquisa do economista Jeffrey Sachs e análises citadas nos estudos consultados.
Pesquisas do Centro de Pesquisas Econômicas e Políticas em Washington apontam que a perda de receitas decorrente do bloqueio foi muito provavelmente o principal fator que empurrou a economia da inflação alta para a hiperinflação, consolidada oficialmente em dezembro de 2017.
A situação sofreu nova deterioração em 2019, com o bloqueio de reservas em ouro e a proibição de acesso ao principal mercado consumidor do petróleo venezuelano, os Estados Unidos, cenário que, segundo cálculo do então secretário de Segurança Nacional Jonh Bolton, poderia resultar em perda de mais de US$ 11 bilhões em receitas de exportação em 2020.
Há sinais de recuperação a partir de 2022, quando algumas medidas foram flexibilizadas pelo governo de Joe Biden, e dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe indicam crescimento do PIB de 8,5% em 2024 e 6,5% em 2025.
As sanções contra a Venezuela são justificadas pelos Estados Unidos em bases que incluem proteção a direitos humanos, promoção da democracia e combate ao narcotráfico, e seus efeitos sobre finanças, comércio e produção seguem sendo objeto de análises técnicas e disputas retóricas entre governos, organismos multilaterais e especialistas.

