Paul Mescal desconstrói mito de Shakespeare em novo filme Hamnet
O ator questiona a imagem popular de William Shakespeare ao interpretar o dramaturgo no filme Hamnet e ressalta que a ausência de registros concretos sobre a verdadeira aparência e personalidade do bardo permite uma abordagem mais humana.
A imagem tradicional de um homem pálido com colarinho franzido e brinco na orelha, comum em buscas na internet, é classificada pelo irlandês de 29 anos como uma suposição coletiva. Ao viver uma versão do escritor em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, ele ressalta que não existem informações definitivas sobre a aparência real do ícone literário. “As pessoas chegaram ao entendimento de que é assim que ele se parecia, mas não temos ideia de como ele era. Não sabemos nada sobre Shakespeare.”
O roteiro opta por chamar o protagonista apenas de Will, apresentando-o como marido de Agnes e pai, em um momento anterior à sua consagração artística. A narrativa mostra um homem que ainda desconhece sua futura grandeza e precisa do incentivo da esposa para buscar oportunidades além da pequena Stratford. “Ele não está ciente do próprio mito porque esse mito ainda não existe. Ele é um artista de Stratford que nem mesmo sabe que é um artista ainda. Ele precisa ser persuadido por Agnes para ir atrás das coisas. Não há nenhum senso de grandeza com ele ainda.”
Essa abordagem permitiu evitar uma reverência excessiva na construção do papel, embora a responsabilidade permaneça a mesma de qualquer trabalho biográfico. O objetivo foi humanizar a figura histórica dentro do universo criado pela autora Maggie O’Farrell, no qual o filme se baseia, desafiando a percepção de intocabilidade do autor. “Não é diferente; acho que cada personagem é uma pessoa real. Eles vivem no mundo da história que o autor cria para eles. No caso de alguém como Shakespeare, você precisa ativamente ir contra o mito de que ele foi um grande homem.”
A trama expande a presença do personagem em comparação ao livro original, mas mantém a ausência física dele na vida familiar como um ponto central. A ida para Londres é retratada não como uma fuga, mas como uma necessidade de processar sentimentos e dar vazão ao impulso criativo, algo impulsionado pela própria Agnes, vivida por Jessie Buckley. “Ele era um pai ausente? É claro que essa é uma perspectiva que as pessoas poderiam ter, mas também deve-se levar em conta o papel da Agnes.”
O luto decorrente de uma tragédia familiar é encarado pelo personagem com recolhimento e silêncio, uma reação que o ator procurou não julgar durante as filmagens. A narrativa sugere que o afastamento foi necessário para o processo de cura e criação artística do dramaturgo. “Ele não está indo para Londres para fugir; ele está indo para processar seus sentimentos. Para mim, o que o filme faz de forma linda é não julgá-lo por isso, porque te dá a oportunidade de ver que ele não está realmente fugindo.”
O processo de atuação privilegiou a imaginação em detrimento do uso de memórias pessoais traumáticas, uma escolha consciente para proteger a saúde mental do intérprete. A direção da cineasta Chloé Zhao contribuiu para essa atmosfera, focando mais na sensação da cena e na liberdade de descoberta do que no planejamento técnico rígido. “Na verdade, sua imaginação é muito mais potente que sua experiência vivida. Porque no minuto em que você tenta aplicar uma experiência vivida, seu corpo começa a te proteger, especialmente se for algo doloroso. É como se ele dissesse: ‘Não quero voltar ali, porque aquilo foi horrível’.”
A parceria com Jessie Buckley rendeu elogios da crítica e reconhecimento na temporada de premiações, incluindo um Globo de Ouro de melhor atriz dramática para ela. Com ambos cotados para o Oscar, Mescal destaca o trabalho da colega como algo que será estudado por muito tempo. “Jessie está extraordinária no filme. Acho que o que ela fez não é apenas a performance do ano. É uma performance que ainda vão estar estudando daqui a muito tempo.”

