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Imunes a remédios: Estudo aponta risco real de ‘superfungos’ no Pantanal

Estudo da UFGD investiga se queimadas e agrotóxicos no Pantanal aceleram o surgimento de fungos resistentes e letais à saúde humana.
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Estudo da UFGD investiga se queimadas e agrotóxicos no Pantanal aceleram o surgimento de superfungos resistentes e letais à saúde humana.

A conexão entre os desastres ambientais e o surgimento de doenças graves é o ponto central de uma nova investigação científica conduzida em Mato Grosso do Sul. A professora Luana Rossato, da UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados), coordena um projeto inédito que busca entender se as queimadas no Pantanal e o uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras do entorno estão acelerando a evolução de superfungos resistentes a tratamentos médicos.

O trabalho ganhou reconhecimento nacional e foi contemplado com o Prêmio Para Mulheres na Ciência, uma iniciativa conjunta do Grupo L’Oréal, Unesco e Academia Brasileira de Ciências.

A proposta do estudo nasce da convergência de três fatores críticos observados nos últimos anos: a frequência dos incêndios no bioma, a aplicação crescente de defensivos agrícolas nas áreas de fronteira e o aumento global de infecções causadas por microrganismos de difícil combate, como a Candida auris e espécies emergentes de Aspergillus.

Estudo da UFGD investiga se queimadas e agrotóxicos no Pantanal aceleram o surgimento de superfungos resistentes e letais à saúde humana.
Pesquisa estuda influência de queimadas e uso de agrotóxicos

A hipótese central levantada pela pesquisadora é que esses eventos extremos funcionam como “pressões seletivas” sobre o meio ambiente, alterando drasticamente o microbioma da água e do solo.

Segundo a explicação técnica de Luana, o processo ocorre porque o calor intenso das chamas e o estresse químico provocado pelos fungicidas eliminam os organismos mais sensíveis. Sobrevivem apenas aqueles capazes de tolerar altas temperaturas e toxicidade.

O perigo reside no fato de que essas linhagens “fortalecidas” podem desenvolver resistência cruzada aos antifúngicos utilizados em hospitais, tornando ineficazes os tratamentos convencionais para infecções humanas.

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Professora Luana Rossato é autora do projeto e pretende usar premiação para dar andamento a pesquisa. (Foto: Arquivo Pessoal)

Metodologia e coleta de dados

O projeto se destaca pela complexidade da análise, que une dados ambientais, microbiológicos e moleculares. O plano de trabalho prevê a coleta de materiais diversos, incluindo amostras de solo, cinzas, sedimentos e água. As equipes percorrerão áreas diretamente atingidas pelo fogo, regiões de transição com a agricultura e pontos de controle (áreas preservadas) para estabelecer comparações.

De acordo com o cronograma metodológico, os fungos encontrados nessas amostras serão isolados e identificados em laboratório. Na sequência, eles serão submetidos a testes rigorosos para avaliar a resistência tanto a fungicidas agrícolas quanto a medicamentos de uso clínico.

Esses resultados biológicos serão cruzados com dados ambientais, como o histórico de queimadas da região, as variações de temperatura e a presença de resíduos químicos no solo. A pesquisa utilizará modelagem ecológica para mapear como essas variáveis influenciam o surgimento de espécies com potencial patogênico.

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Coleta de dados se baseia em procedimentos simples

Saúde Única e cronograma

A pesquisadora ressalta que os fungos existem naturalmente na matéria orgânica em decomposição e, em sua maioria, são inofensivos. O problema surge quando as pressões ambientais favorecem a seleção de tipos perigosos. O estudo fundamenta-se no conceito de “One Health” (Saúde Única), que entende a saúde humana como indissociável da saúde animal e ambiental. O objetivo é detectar precocemente mudanças no comportamento desses organismos, identificar áreas críticas e fornecer base científica para o uso racional de defensivos e políticas de manejo.

O projeto encontra-se atualmente na fase de planejamento da amostragem e organização logística. Luana afirma que os recursos do prêmio ajudarão a acelerar as etapas iniciais, mas a previsão é que as coletas de campo comecem efetivamente em abril de 2026, após a liberação das autorizações necessárias. A iniciativa contará com o suporte acadêmico da UFGD, envolvendo estudantes de Iniciação Científica, mestrado e doutorado em todas as etapas do processo.

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