‘Complexo de Israel’: A vida surreal de “Peixão” traficante que teve a família parada em MS
Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, figura na lista dos criminosos mais procurados do Rio de Janeiro e lidera o Terceiro Comando Puro (TCP) sem nunca ter pisado em um presídio. O nome do traficante ganhou destaque em Mato Grosso do Sul nesta segunda-feira (8), após a Polícia Rodoviária Federal abordar a mulher e os filhos dele na BR-262, quando viajavam em direção a Corumbá, na fronteira com a Bolívia.

O criminoso é o responsável pela criação do chamado “Complexo de Israel”, na Zona Norte carioca, um território que une as favelas da Cidade Alta, Parada de Lucas, Vigário Geral, Cinco Bocas e Pica-pau. Sob seu comando, a região foi marcada com símbolos como a Estrela de Davi e bandeiras israelenses, além de pontes construídas para ligar as comunidades e câmeras de monitoramento instaladas para vigiar a rotina dos moradores.

A trajetória de Peixão é marcada por contradições religiosas e violência extrema. Conhecido na infância como “Alvinho”, ele foi criado pela mãe umbandista e comia doces de Cosme e Damião nas esquinas da Avenida Brasil. Após se converter a uma igreja evangélica, passou a adotar uma postura de intolerância e ordenou o fechamento de terreiros de matriz africana e até de templos católicos, autointitulando-se integrante do “Bonde de Jesus”.

Vida de luxo e guerra
O império do traficante começou a crescer após a Olimpíada de 2016 e se consolidou durante a pandemia. Incursões policiais recentes encontraram imóveis de alto padrão utilizados por ele dentro da favela, equipados com academia moderna, piscina e um lago particular para criação de carpas. Mesmo foragido, ele mantém hábitos peculiares, como o costume de colocar azeitona em todas as refeições.

A ficha criminal de Álvaro acumula mais de 50 registros e cerca de 20 mandados de prisão por homicídio, tortura e ocultação de cadáver. O poderio bélico de sua quadrilha provocou o fechamento da Avenida Brasil e da Linha Vermelha na última semana, durante intensos tiroteios contra o rival Comando Vermelho e a polícia.
Rota de fuga
A abordagem da família de Peixão em Mato Grosso do Sul expõe uma rota conhecida da inteligência policial. A mulher e os filhos seguiam para Corumbá portando joias e símbolos da facção, caminho frequentemente utilizado para acessar a cidade boliviana de Santa Cruz de La Sierra. Investigações apontam que chefes do crime organizado brasileiro usam o país vizinho para viver em liberdade e comandar o tráfico à distância, longe do alcance imediato da justiça brasileira.

