Deus, cobiça e mercado imobiliário

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Missa para igreja vazia em San Giorgio Ionico, na Itália, em 12 de abril de 2020; pandemia afastou fiéis Foto: Alessandro Garofalo/Reuters
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Pergunte a vigários, rabinos ou imãs a respeito de desafios, e a necessidade de fomentar valores espirituais em um mundo secular pode ser a resposta. Mas as religiões do mundo enfrentam um tipo de problema igualmente agudo, mas distinto: como manter-se ativas de maneira material e competitiva. Nas religiões, como em outras atividades, a covid ajudou a distinguir vencedores e perdedores. Igrejas que atendiam aos anseios de seus rebanhos prosperaram, já que as pessoas passaram a se preocupar mais a respeito da morte – e nos lockdowns, encontraram mais tempo para se dedicar à louvação e à reza.

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Mas igrejas que já enfrentavam problemas antes da pandemia encontraram dificuldades maiores para reter suas congregações. A covid acelerou uma migração para serviços online, dando a muitos dos antigos fiéis uma desculpa para não dar mais as caras.

Muitas instituições religiosas fecharam as portas da noite para o dia, transferindo seus serviços para o Zoom. Agora, à medida que suas instalações reabrem, elas não estão certas se os fiéis retornarão. Se menos congregados aparecerem, duas tendências poderão se intensificar. Muitas organizações religiosas se livrarão de imóveis mal aproveitados. E mais igrejas se fundirão.

Há muito tempo, economistas analisam grupos religiosos como se fossem empresas. Em 1776, o escocês Adam Smith argumentou em Riqueza das Nações que igrejas são empreendimentos similares a açougues, padarias e cervejarias. Em um mercado livre e competitivo, no qual dependem de doações e voluntários, elas devem atuar com zelo e diligência para atrair fiéis. Fusões, aquisições e falências são inevitáveis.

Atualmente, o mercado da religião está em movimento, talvez mais do que nunca. No lado da demanda, as igrejas do Ocidente sofrem com a secularização global iniciada muito antes da pandemia. Mesmo nos EUA, o exemplo mais patente de país rico que prosperou ao lado da religião (dizem alguns que por causa dela), a fatia de cidadãos que se identificam como cristãos diminuiu de 82%, em 2000, para menos de 75%, em 2020.

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Segundo o World Values Survey, cerca de 30% dos americanos afirmam que frequentam serviços religiosos pelo menos uma vez por semana. Isso é bastante em comparação a outros países ricos. Mas o índice caiu em relação ao início do milênio, quando era de 45%.

No lado da oferta, a competição tende a ser vigorosa em países cujos governos não ditam qual religião seus habitantes devem seguir. John Gordon Melton, da Universidade Baylor, no Texas, reconhece que há cerca de 1,2 mil denominações cristãs nos EUA, juntamente com outras fés. Para atrair fiéis, elas precisam tornar a louvação atrativa de qualquer maneira.

Três quartos dos americanos, segundo pesquisa Gallup, afirmam que a música é um fator; 85% são atraídos por atividades sociais. Para Roger Finke, da Universidade Estadual da Pensilvânia, a chave para o pluralismo não é haver “mais religiões”, mas que elas “atendam” o gosto dos consumidores.

Distanciamento

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A covid provocou inovações. O Centro Cristão Milton Keynes, no Reino Unido, por exemplo, desenvolveu cursos de educação religiosa e grupos de orações online e presenciais. A instituição dá apoio a um banco de alimentos e inaugurou uma ação que chama de “suíte sensorial” – “um espaço tranquilizador e relaxante” –, para crianças com dificuldades de aprendizagem.

“As igrejas estão tendo de revisitar suas estratégias para garantir que estejam em contato com nossa cultura atual”, afirma Tony Morgan, fundador do The Unstuck Group, consultoria para instituições religiosas com base em Atlanta, que presta serviço para a paróquia em Milton Keynes.

Muitas igrejas, porém, fracassaram em acompanhar esse ritmo. Suas congregações não migraram para o ambiente online durante o lockdown porque lhes faltava tecnologia e por aversão à ideia. Algumas demoraram demais para reabrir as portas. Enquanto isso, os serviços religiosos transmitidos pela internet facilitaram para os fiéis “irem à igreja”.

Em pesquisa do Barna Group com cristãos praticantes nos EUA, 14% responderam que haviam mudado de igreja; 18% que frequentavam mais de uma igreja; 35% que iam somente à igreja que já frequentavam antes da pandemia; e 32% que pararam de ir à igreja.

Uma manobra essencial para qualquer igreja, esteja ela em dificuldades ou prosperando, é equilibrar suas contas, e isso significa lidar com seu portfólio de imóveis. A religião organizada está lutando contra os mesmos problemas que proprietários de lojas de shopping centers abandonados e de escritórios vazios, à medida que os negócios migram para o ambiente online. Eles devem ficar parados assistindo enquanto o público diminui? Se não, de que maneira deveriam repensar seus imóveis?

Por séculos, as religiões acumularam riquezas terrenas na forma de imóveis. O Vaticano possui milhares de edifícios, alguns nas mais requintadas regiões de Londres e Paris. A Igreja da Cientologia é dona de endereços em Hollywood que, estima-se, valem US$ 400 milhões, de um castelo na África do Sul e de uma mansão do século 18 em Sussex. O Wat Phra Dhammakaya, templo da seita budista mais abastada da Tailândia, ostenta centros de meditação em todo o mundo. O tamanho da fortuna da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mais conhecida como a igreja Mórmon, é um mistério; afirma-se que a instituição possui investimentos de US$ 100 bilhões, incluindo fazendas de gado, um parque temático no Havaí e um shopping center em Utah. Templos, sinagogas e mesquitas assistem atentamente os preços dos imóveis aumentar.

Crise

Isso tornou-se ainda mais vital quando a frequência diminuiu, juntamente com as doações. Prédios de igrejas na Inglaterra fecharam ao ritmo de mais de 200 por ano na década passada. Outros tantos deverão ser vendidos ou demolidos nos próximos anos. Nos EUA, dezenas de milhares de centros religiosos correm o risco de fechar as portas definitivamente. Quase um terço das sinagogas americanas fechou nas últimas duas décadas.

A Igreja de Santa Maria de Berlim reflete essa tendência. O edifício é repleto de afrescos e esculturas, mas seus bancos estão vazios. A congregação tem minguado desde a 2.ª Guerra. Seu pastor luterano, Gregor Hohberg, afirma que os jovens ainda possuem “necessidades religiosas”, mas as suprem em aulas de ioga e meditação.

Enquanto isso, custos e reparos urgentes estão se tornando proibitivos. A Igreja Anglicana afirma que precisa de US$ 1,3 bilhão – mais de sete vezes seu ganho anual em 2020 – para reparos nos próximos cinco anos. Igrejas britânicas têm fechado a um ritmo alarmante. Nos EUA, a manutenção de edifícios representa mais de um quarto do orçamento das igrejas – que mantêm 80% mais espaço do que necessitam.

Muitas mesquitas, especialmente no Ocidente, também enfrentam dificuldades. Apesar de atraírem mais fiéis do que igrejas bem financiadas, o orçamento anual médio das mesquitas americanas, estimado em US$ 70 mil, é baixo demais para manter seus edifícios em bom estado.

Obstáculos

A internet tem sido tanto uma bênção quanto uma maldição. Um sermão virtual do arcebispo de Canterbury, em 2020, foi ouvido por 5 milhões de pessoas – mais de cinco vezes o número de fiéis que frequentavam a igreja semanalmente no Reino Unido antes da pandemia. Mas a participação online cobra um preço. Os fiéis param de frequentar os centros religiosos, e construções tornam-se obsoletas.

Por isso, grupos religiosos têm vendido imóveis mais rapidamente do que antes – ou estão explorando novos usos. Líderes em busca de um lugar no Céu estão aprendendo a vender ou alugar lugares na Terra. Testemunhas de Jeová, que têm 9 milhões de fiéis no mundo, venderam sua sede no Reino Unido. A Hillsong, uma gigantesca igreja australiana de 150 mil fiéis em 30 países, aluga teatros, cinemas e outros espaços para serviços dominicais.

Mas desfazer-se de propriedades é difícil. Em 2020, os administradores do templo hinduísta de Venkateswara, em Tirumala, na Índia, foram qualificados como “anti-hinduístas” por tentar leiloar dezenas de imóveis. E foram convencidos a abandonar a ideia.

Outra abordagem é cada vez mais comum: a fusão. Poucos meses atrás, o pastor Jim Tomberlin foi sondado por uma igreja de Detroit, uma congregação de 50 fiéis com uma dívida de US$ 450 mil. Seus líderes querem se juntar a outra paróquia, a 15 minutos de carro, cuja congregação tem um rebanho de mil fiéis – além de um saudável balancete. Como muitas outras instituições em apuros, os peixes pequenos pediram a mediação de Tomberlin. “Eles reconhecem que a opção é fusão ou morte”, diz.

A tendência de fusão começou antes da covid, mas o ritmo poderá se acelerar. O movimento é provocado não pela teologia, mas pela gerência, enquanto orçamentos ficam apertados e pastores abandonam o trabalho. Isto ocorre entre igrejas católicas, sinagogas e dentro de outras religiões, mas são mais comuns entre igrejas protestantes dos EUA.

Como em qualquer empresa, quando duas igrejas se fundem, seus líderes podem brigar, mudanças de cultura podem expulsar membros e finanças conjuntas nem sempre funcionam. Em fusões de igrejas, a mais fraca perde seguidores. Cerca de um quinto perde mais de 40% de sua congregação no ano seguinte à união.

Mas 1.750 “megaigrejas” protestantes, com mais de 2 mil frequentadores e orçamentos multimilionários, floresceram. Warren Bird, um pastor especializado em megaigrejas, afirma que uma boa parceria entre paróquias é como um casamento bem-sucedido. Cada cônjuge deve trazer seus próprios dotes, enquanto uma igreja em dificuldade tende a ser engolida.

Economistas não são os únicos a considerar a competição religiosa saudável. “Se houvesse apenas uma religião na Inglaterra”, disse o escritor francês Voltaire, na década de 1730, “haveria risco de despotismo. Se houvesse duas, elas cortariam as gargantas uma da outra. Mas se há 30, elas vivem em paz e harmonia”. Talvez ele tenha sido radical demais, mas o coronavírus certamente fez as instituições prestarem mais atenção nos seus bens comerciais.

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